Aterrissamos na Nova Zelândia | Lucas Bessa

Para a EA Magazine

 

Começando nossa história em Auckland 

Março 2019. Minha família e eu aterrissamos na Nova Zelândia nesta data, mas nossa jornada para chegar aqui começou um ano antes. Antes de começar a falar dela, é preciso deixar claro que apesar da ideia de deixar o Brasil para morar em outro país possa ser sedutora, colocar ela ideia em prática não é trivial.  

Recomendo fortemente refletir muito sobre o assunto antes de tomar qualquer decisão sobre isso, principalmente para entender quais seriam suas razões e motivações para se tentar ganhar a vida em outro país. 

No nosso caso, no começo de 2018 tinham algumas coisas que estavam nos incomodando muito, entre elas: 

  1. Renda familiar
    Minha esposa e eu trabalhávamos em banco e isso nos ajudou a proporcionar uma vida confortável para nós e nossos filhos até aquele momento, mas estava cada vez claro para nós que a cada ano o custo de vida aumentava quase sempre mais do que os reajustes de salário e eventuais promoções que a gente recebia. Só como exemplo, naquele ano o plano de saúde que a gente pagava tinha sido reajustado em 15%, mesmo que a inflação acumulada do ano anterior tenha ficado em torno de 2,6%.
  2. Qualidade de vida
    Nós morávamos no bairro do Butantã em São Paulo, eu trabalhava em Barueri e minha esposa no Jabaquara. Enfrentar de 1 a 2 horas de trânsito para ir e depois para voltar do trabalho era parte da rotina e além disso isso nos forçava a ter que deixar nossos filhos na escolinha em tempo integral. Sobrava muito pouco tempo para dar a devida atenção para eles durante a semana.
  3. Educação dos nossos filhos
    O tipo de educação que desejávamos para nossos filhos era oferecido por poucas instituições de ensino, e o custo delas estava fora da nossa realidade. Quando paramos para começar a refletir como podíamos minimizar esses incômodos, algumas ideias surgiram. Mudar para alguma cidade do interior poderia melhorar nossa qualidade de vida, mas numa época pré-pandemia continuar no mesmo emprego trabalhando remotamente não era uma opção e pegar fretado para ir e voltar do trabalho seria trocar seis por meia dúzia. 

 

resized image Promo - Aterrissamos na Nova Zelândia
Lucas em momento de confraternização com o time da Triquestra, primeira empresa em que trabalhou na Nova Zelândia.

Outra ideia era procurar vagas de emprego que pagassem mais, mas no momento de carreira em que estávamos, provavelmente significaria ter que aumentar ainda mais nossa dedicação ao trabalho e, consequentemente, passar ainda menos tempo com nossos filhos. 

Depois de refletir sobre essas e outras ideias, começamos a considerar a possibilidade de tentar uma vida fora do Brasil, mas onde? 

Começamos a pesquisar e alguns países como Canadá e Austrália logo entraram na lista, mas a Nova Zelândia acabou chamando nossa atenção pois aparentemente tinha tudo o que procurávamos: Bastante oferta de empregos em TI, o sistema educacional era o que queríamos para nossos filhos e parecia possível ter uma boa qualidade de vida por lá. 

Para nossa sorte, tínhamos um casal de amigos que já tinha se mudado para Auckland e entramos em contato com eles para confirmar se era tudo isso mesmo, e o feedback deles foi o melhor possível. Isso deixou a gente bastante animado e finalmente resolvemos bater o martelo.  

Vamos para a Nova Zelândia! Mas como? 

Nos meses que se seguiram começamos a planejar a nossa ida e a pesquisar mais a fundo como funcionava o mercado de trabalho daqui. Comecei a me candidatar a algumas vagas antes de ir, mas a maioria das empresas na época ainda não eram adeptas a entrevistas on-line, sempre tinha pelo menos uma conversa presencial no processo. Por esse e outros motivos, decidimos que pediríamos demissões no Brasil, eu e minha esposa, e iríamos todos juntos para a Nova Zelândia em busca de emprego.  

A ideia era aumentar as chances de conseguir um trabalho e garantir que todos pudessem ficar (o primeiro que conseguisse poderia solicitar vistos para os demais atrelados ao visto de trabalho). 

Também passamos a estudar sobre o custo de vista da Nova Zelândia, afinal com os dois sem emprego só teríamos o dinheiro das nossas economias para nos sustentar enquanto procurávamos trabalho. Isso nos ajudou a definir quanto tempo poderíamos ficar lá antes de possivelmente ter que partir para um plano B de voltar para o Brasil. 

Vendemos quase tudo o que tínhamos para juntar mais dinheiro e em março de 2019 lá fomos nós. 

A dificuldade inicial foi lidar com o inglês daqui, que tem um sotaque diferente do inglês americano e britânico que normalmente a gente ouve em filmes e séries exibidos no Brasil. Fora o fato de que a Nova Zelândia é um país de imigrantes,  

e principalmente em cidades maiores como Auckland é muito comum que você converse com alguém que também é de algum outro país e que possui o seu próprio sotaque para falar inglês. 

Cadê o emprego? 

A próxima dificuldade foi a busca de emprego. Como qualquer coisa que eu conseguisse seria novidade, eu estava disposto inicialmente até a voltar a ser desenvolvedor júnior para compreender como as coisas aqui funcionam aos poucos, mas tinha dois problemas.   

O primeiro era que praticamente não havia vagas de júnior na época. Justamente por ser um país de imigrantes que atrai muitos profissionais qualificados de fora do país, as empresas se acostumaram a recrutar profissionais “prontos” no mercado. 

O outro problema era que aqui as descrições, responsabilidades e progressão de carreira dos cargos são relativamente bem definidas nas empresas, e esse tipo de movimentação que eu queria fazer inicialmente não fazia o menor sentido para a maioria dos recrutadores com quem eu conversei, o que me obrigava quase sempre perder mais tempo explicando isso do que falando sobre a vaga em si. 

As coisas começaram a mudar depois que participei de um workshop gratuito para imigrantes que estavam em busca de emprego, oferecido pela Câmara de Comércio de Auckland, e uma das responsáveis me mostrou como boa parte da experiência que eu tinha como Arquiteto Corporativo no Brasil se encaixava muito bem no cargo de Analista de Negócios daqui.  

Consegui o primeiro emprego 

A partir desse ponto, as entrevistas começaram a fluir melhor e, finalmente, depois de seis meses de busca, consegui o meu primeiro emprego aqui. E como minha esposa também havia conseguido o emprego dela um pouco antes de mim, já podíamos ficar indefinidamente. 

O começo foi bem desafiador. Eu estava em outro país, trabalhando em tempo integral em outro idioma e em um negócio totalmente diferente do que eu havia trabalhado antes. Era em uma empresa fornecia sistemas de Ponto de Venda para outras empresas de diversos seguimentos, incluindo postos de combustíveis, lojas de móveis, lojas de roupa, loja de produtos para agronegócios, etc.  

Apesar da dificuldade inicial, esse emprego me ajudou muito a entender melhor como as empresas funcionam de maneira geral. 

Em relação a qualidade de vida, ela melhorou significativamente. Também temos trânsito em Auckland, mas não chega nem perto do caos que era o de São Paulo. E desde o começo da pandemia, eu passei a trabalhar a maior parte do tempo de casa. No nosso tempo livre, sempre que possível tentamos explorar as belezas naturais daqui indo para algum lugar diferente. 

Em relação à educação dos nossos filhos, somos frequentemente surpreendidos positivamente com a qualidade do sistema educacional daqui. E é muito gratificante ver como nossos filhos gostam do que apreendem e normalmente ficam animados para irem para a escola. Recentemente, surgiu uma oportunidade para voltar a trabalhar novamente em um banco, vamos ver como será mais essa nova jornada.   

Relato 1. Minha história com a tecnologia. 

Relato 3. Progressão da minha carreira na Nova Zelândia.

 

Lucas Bessa foto 1 - Aterrissamos na Nova Zelândia

Lucas Bessa trabalha desde 2007 em projetos, inciativas e consultorias de tecnologia. A maior parte de sua carreira atuou no sistema financeiro de varejo, em players como Itaú, Rede e Bradesco. Desde 2019, mora em Auckland, Nova Zelândia, onde é Senior Business Analyst no ASB Bank. 
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