Por João Casarri Neto  

 

Durante grande parte da vida profissional, somos estimulados a responder uma pergunta relativamente simples: “O que você faz?”. A resposta quase sempre vem acompanhada de um cargo, de uma profissão ou de uma especialidade. Somos gerentes, analistas, vendedores, engenheiros, administradores, empresários. Com o passar dos anos, essa definição passa a ocupar não apenas o espaço do trabalho, mas também uma parte importante da nossa identidade. 

Talvez seja por isso que tantas pessoas enfrentam um momento de reflexão ao ultrapassar os 50 anos. Não necessariamente porque estejam pensando em aposentadoria ou porque desejam encerrar suas carreiras, mas porque começam a perceber que a pergunta mais importante já não é exatamente “o que eu faço?”. Aos poucos, uma outra questão surge de forma mais significativa: “o que ainda posso contribuir?”. 

A diferença entre essas duas formas de enxergar a carreira pode parecer pequena, mas não é.  

Uma delas está centrada na função exercida. A outra está centrada no valor que somos capazes de gerar para as pessoas, para as organizações e para a sociedade. Quando olhamos para a longevidade profissional sob essa perspectiva, percebemos que a experiência acumulada ao longo dos anos pode abrir mais portas do que fechar. 

Ao longo da minha própria trajetória profissional, aprendi que carreira não é um destino definitivo. Ela pode ser reinventada diversas vezes. Meu primeiro contato com o mundo do trabalho foi como aprendiz de mecânico de automóveis. Naquele momento, seria difícil imaginar que anos depois eu me tornaria gestor de Recursos Humanos de uma concessionária. Mais tarde, uma nova transição aconteceu e eu passei a atuar como consultor de Tecnologia para a área de RH, unindo minha experiência em gestão de pessoas ao universo dos sistemas e processos. E, nos últimos anos, uma nova transformação me conduziu para atividades que hoje fazem parte do meu propósito: escrever como colunista, atuar como mentor e desenvolver líderes por meio de treinamentos e processos de coaching. 

Quando observo essas mudanças em retrospectiva, percebo que nenhuma delas representou um abandono do passado.  

Pelo contrário. Cada etapa foi construída sobre os aprendizados da etapa anterior. O conhecimento adquirido na oficina, a convivência com equipes, a experiência em gestão de pessoas, os projetos de tecnologia e os desafios da liderança continuam presentes em tudo o que faço hoje.  

O que mudou foi a forma de colocar esse conhecimento a serviço de outras pessoas. 

Acredito que essa seja uma das reflexões mais importantes para os profissionais seniores. Muitas vezes, associamos nossa relevância ao cargo que ocupamos ou à atividade que exercemos. No entanto, a verdadeira relevância está naquilo que somos capazes de entregar às pessoas, às organizações e à sociedade. Quando compreendemos isso, deixamos de enxergar as transições profissionais como perdas e passamos a enxergá-las como oportunidades de aplicar nossa experiência em novos contextos. 

É justamente nesse ponto que a maturidade profissional revela uma de suas maiores riquezas.  

Ao longo das décadas, acumulamos muito mais do que conhecimento técnico. Construímos repertório, desenvolvemos discernimento, aprendemos a lidar com situações complexas, convivemos com diferentes gerações e enfrentamos desafios que nos ensinaram lições valiosas. Esse conjunto de experiências nos permite enxergar cenários com uma profundidade que dificilmente seria possível no início da carreira. 

Por isso, quando alguém me pergunta qual é o espaço dos profissionais 50+ no mercado de trabalho, minha resposta costuma ser simples: o espaço está na capacidade de gerar valor.  

Alguns continuarão atuando em suas áreas de origem. Outros encontrarão caminhos na consultoria, na mentoria, no empreendedorismo, no voluntariado ou na educação. Haverá também aqueles que descobrirão talentos adormecidos e iniciarão uma trajetória completamente diferente daquela que imaginaram na juventude. 

O mais importante é compreender que experiência não deve ser vista como um capítulo encerrado, mas como matéria-prima para novas realizações. O mercado muda, as profissões evoluem e as organizações se transformam, mas a capacidade humana de aprender, compartilhar conhecimento e gerar valor permanece viva em qualquer idade. 

Com o passar dos anos, descobrimos que o valor de uma carreira não está apenas naquilo que construímos para nós mesmos, mas também naquilo que ajudamos a construir nos outros. Nossa trajetória deixa de ser medida apenas pelos cargos que ocupamos e passa a ser percebida pelas pessoas que desenvolvemos. 

Seja pelos conhecimentos que compartilhamos ou os exemplos que oferecemos e pelos caminhos que ajudamos a abrir. 

Talvez essa seja uma das maiores conquistas da maturidade profissional: compreender que a experiência não representa o final da jornada, e sim a possibilidade de iniciar novos capítulos com mais consciência, mais propósito e uma compreensão mais clara do impacto que podemos gerar. E, para a maioria de nós, esse impacto ainda tem potencial para crescer por muitos anos mais. 

Bora continuar? 

 

joao casarri neto 150x150 1 - O que ainda posso contribuir?

João Casarri Neto é economista, consultor de RH/TI, analista comportamental DISC, coach, mentor, treinador de líderes, e Practitioner PNL. Autor do livro “Os 5 Princípios da Resiliência”, é também criador do programa “Sou Líder, e Agora?” para ajudar líderes em início de carreira. É Embaixador de Inovação e Tecnologia da Associação Brasileira dos Profissionais de RH (HUBRH+ABPRH). Colunista EA “Geração 50+”. 

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