Por João Casarri Neto

 

Há preconceitos que não se anunciam. Eles não chegam em forma de rejeição explícita, nem aparecem declarados em políticas organizacionais. Ao contrário, se escondem em discursos aparentemente técnicos, quase sempre bem-intencionados, e, por isso mesmo, mais difíceis de serem percebidos.

O etarismo no mercado de trabalho costuma operar exatamente assim.

Ele se manifesta em frases como:

  • “Procuramos alguém com perfil mais dinâmico”
  • “Estamos buscando um profissional com mais energia”
  • “Talvez não se adapte à cultura do time”
  • “É uma equipe muito jovem”
  • “Overqualified”

À primeira vista, parecem critérios legítimos.
Mas, muitas vezes, funcionam como códigos sutis para um julgamento que pouco tem a ver com competência, e muito com idade. Esse tipo de leitura reduz profissionais a percepções simplificadas. No caso dos 50+, frequentemente associadas a ideias de menor adaptabilidade, baixa familiaridade tecnológica ou dificuldade em acompanhar mudanças.

Mas talvez a questão mais relevante não seja apenas o impacto desse preconceito sobre quem o sofre.

É preciso olhar também para o outro lado da equação: o que as empresas perdem quando escolhem não ver valor na experiência?

Porque, ao preterir profissionais seniores, as organizações não estão apenas recusando um candidato.

Estão, na maioria das vezes, abrindo mão de repertório.

Experiência não é apenas tempo acumulado.
É leitura de contexto.
É capacidade de antecipar riscos.
É discernimento em cenários complexos.
É memória organizacional transformada em aprendizado prático.

E quando esse ativo é descartado, a perda nem sempre é imediata ou visível, mas ela acontece.

Empresas que não valorizam a diversidade geracional tendem a empobrecer sua capacidade de análise e inovação. Estudos e levantamentos de mercado relacionam ambientes mais diversos, inclusive em idade, a melhores resultados de inovação e desempenho.

É importante dizer algo com clareza:

Juventude e experiência não são forças opostas.

O verdadeiro diferencial competitivo está na integração entre elas.

A juventude pode trazer velocidade, novas linguagens, familiaridade com tecnologias emergentes e questionamentos importantes.

A maturidade pelo seu lado, oferece profundidade, estabilidade emocional, visão sistêmica e repertório decisório.

Quando a empresa escolhe uma em detrimento da outra, perde potência. Quando combina ambas, ganha inteligência coletiva. Talvez o maior erro do mercado seja confundir renovação com substituição.

Renovar não é descartar o que veio antes.

Renovar é integrar o novo ao que já foi aprendido.

E há um ponto humano que não pode ser ignorado. O etarismo não afeta apenas a empregabilidade. Ele impacta identidade, autoestima, pertencimento e dignidade.

Para muitos profissionais 50+, o trabalho não é somente fonte de renda. É também espaço de contribuição, de legado e de reconhecimento. Ser preterido pela idade não é apenas uma barreira profissional.É uma mensagem silenciosa de desvalorização de toda uma trajetória.

Em uma sociedade que envelhece rapidamente, insistir nesse tipo de lógica não é apenas injusto.

É um erro estratégico.

O futuro do trabalho não será sustentável se continuar ignorando justamente aqueles que acumularam experiência suficiente para ajudar a lidar com a complexidade que esse futuro exige.

Talvez a pergunta que precise permanecer nas organizações seja simples, e, ao mesmo tempo, desconfortável:

Quanto conhecimento está sendo perdido todas as vezes que a idade pesa mais do que a competência?

Porque, no fim, o etarismo não limita apenas carreiras.

Ele limita o próprio potencial das empresas.

 

joao casarri neto 150x150 1 - Quando a idade pesa mais que a competência, quem perde é a empresa

João Casarri Neto é economista, consultor de RH/TI, analista comportamental DISC, coach, mentor, treinador de líderes, e Practitioner PNL. Autor do livro “Os 5 Princípios da Resiliência”, é também criador do programa “Sou Líder, e Agora?” para ajudar líderes em início de carreira. É Embaixador de Inovação e Tecnologia da Associação Brasileira dos Profissionais de RH (HUBRH+ABPRH). Colunista EA “Geração 50+”.

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