Por Luciel Henrique de Oliveira 

 

Como distinguir estratégia genuína de discurso vazio, e o que fazer quando ESG não sai do relatório. 

O ESG chegou ao ponto de inflexão. O que nasceu como linguagem de consenso corporativo, um conjunto de critérios ambientais, sociais e de governança para orientar investimentos e práticas empresariais, tornou-se um campo de batalha ideológico, regulatório e estratégico. Entender o que está em jogo é, hoje, condição básica para qualquer administrador, empreendedor ou consultor que queira navegar com inteligência nesse cenário. 

O mapa da polarização global 

Há três cenários coexistindo no planeta ao mesmo tempo. Nos Estados Unidos, o ESG foi capturado pelo debate político: é associado ao chamado “woke capitalism” e enfrenta boicotes de estados conservadores, que proíbem fundos de pensão de usar critérios ESG.  

Na Europa, a discussão migrou para custo regulatório: a União Européia, que apostou pesado em obrigações de reporte (como a CSRD e o regulamento SFDR), agora revisita exigências sob argumento de competitividade. Na Ásia, especialmente no Sudeste Asiático, sustentabilidade é vista como vetor de desenvolvimento, não como ideologia. 

Para o Brasil, esse mapa tem implicação direta: empresas exportadoras para a Europa precisam cumprir due diligence socioambiental de sua cadeia (já exigida por regulações como a EUDR, para produtos de regiões com desmatamento). Empresas com capital estrangeiro ou em mercados financeiros enfrentam pressão crescente de investidores institucionais. E empresas voltadas ao mercado interno disputam reputação e talentos num ambiente onde consumidores e candidatos a emprego prestam atenção à agenda ESG. 

A armadilha das trilhas paralelas 

Muitas organizações divulgam metas climáticas e relatórios sociais impecáveis, mas mantêm bônus, promoções e orçamentos ancorados apenas em custo, volume e margem. O resultado é o ESG como decoração. 

Esse fenômeno tem nome técnico: fallacy of parallel tracks (falácia das trilhas paralelas). O Chief Sustainability Officer (CSO), que existe em mais de 80% das empresas do Fortune 500, responde pela agenda verde, mas frequentemente não tem autoridade sobre compras, logística, desenvolvimento de produto ou crédito.  

A pergunta que toda organização deveria fazer é simples: se o diretor de sustentabilidade e o diretor comercial entrarem em conflito, quem vence? 

A resposta honesta revela o grau de maturidade ESG real. Empresas como a Unilever, frequentemente citada como benchmark, embutiram sustentabilidade no próprio desenho de produto e cadeia de valor: em 2024, reportaram suporte a mais de 80 mil pequenos agricultores e a 2,58 milhões de pequenos varejistas via plataformas digitais, integrando impacto social à lógica de negócio, não apenas ao relatório anual. 

Há exemplos ainda mais claros quando se observa onde a sustentabilidade altera critérios de investimento, preço, incentivo e alocação de recursos. A Microsoft, por exemplo, vem utilizando taxa interna de carbono e de água para financiar iniciativas ambientais e induzir decisões operacionais concretas nas unidades de negócio, o que desloca o tema do discurso para a lógica econômica da empresa. Já a Natura desenvolveu mecanismos de gestão por impacto para apoiar decisões com base em retorno socioambiental e não apenas em margem financeira de curto prazo. Em outro extremo, a dinamarquesa Ørsted é emblemática por ter redefinido o próprio modelo de negócio, saindo da dependência fóssil para concentrar sua estratégia em energia renovável, com reflexos diretos sobre portfólio, risco regulatório e captação verde. Em todos esses casos, o ponto decisivo é o mesmo: o ESG deixa de ser apêndice institucional quando passa a influenciar orçamento, inovação, governança e vantagem competitiva. 

Greenwashing e greenhushing: dois lados do mesmo problema 

greenwashing, declarar compromissos ambientais que não se sustentam, é amplamente debatido. Mas há um fenômeno simétrico e menos discutido: o greenhushing ou “silenciamento verde. Empresas que, por medo de ataques, processos judiciais ou desgaste reputacional, param de comunicar até mesmo os avanços reais.  

Pesquisas da consultoria South Pole (2023-2025) mostram que esse comportamento cresceu significativamente: cerca de um em cada quatro líderes de grandes empresas decidiu não publicar metas climáticas para evitar escrutínio. 

O paradoxo é grave: organizações que efetivamente avançam em descarbonização, inclusão ou governança passam a ficar invisíveis, enquanto as que apenas fazem marketing continuam dominando a narrativa. 

O debate do dever fiduciário, e o que ele significa na prática 

Um dos argumentos mais sérios contra o ESG é jurídico: gestores têm dever fiduciário para com acionistas. Gastar recursos em iniciativas socioambientais que não geram retorno seria, nessa visão, uma violação legal. Esse debate, que remonta a decisões judiciais norte-americanas de 1919, ganhou nova rodada com a regulação do Departamento do Trabalho dos EUA em 2022, que removeu barreiras para que fiduciários considerem fatores ESG materialmente relevantes em investimentos de aposentadoria. 

A resposta prática para gestores: ESG que se justifica apenas por reputação ou Compliance é frágil. ESG que se justifica por redução de risco, eficiência de recursos, acesso a capital e inovação de produto é robusto, e pode ser explicado a acionistas sem contradição. 

Green Swans: onde estão as oportunidades que o mercado ainda não viu 

O conceito de Green Swans (cisnes verdes), popularizado por John Elkington, inverte a lógica do risco: em vez de perguntar apenas “o que podemos perder?”, pergunta “quais modelos sustentáveis hoje subvalorizados podem ganhar tração explosiva quando tecnologia, regulação e comportamento convergirem?” 

Exemplos concretos no Brasil: energias renováveis (o país já é um dos maiores produtores de eólica e solar), bioeconomia na Amazônia (empresas como a Natura constroem cadeias inteiras com comunidades extrativistas), agricultura regenerativa (integração lavoura-pecuária-floresta com crédito de carbono), e embalagens de base biológica (startups brasileiras como a Biopact avançam em alternativas ao plástico fóssil). Quem identificar esses pontos de inflexão antes do mercado, captura vantagem competitiva real. 

O que fazer agora: ESG como critério de decisão 

A conclusão pragmática é direta: ESG útil não é slogan moral nem planilha isolada. É critério de decisão incorporado à governança, à remuneração e ao portfólio. Algumas ações concretas por setor: 

  • Indústria: mapear emissões de escopo 1, 2 e 3; vincular metas de energia limpa à remuneração variável de gestores de planta. 
  • Varejo: rastrear cadeia de fornecimento (especialmente para commodities sob pressão regulatória europeia); estabelecer critérios ESG para homologação de fornecedores. 
  • Agronegócio: aderir a protocolos de rastreabilidade (CAR, EUDR); explorar créditos de carbono verificados por metodologias como Verra ou Gold Standard. 
  • Serviços financeiros: integrar scoring ESG nas análises de crédito; oferecer produtos ESG-linked (CRIs, CRAs, debêntures verdes). 
  • Educação e terceiro setor: mensurar impacto social com metodologias reconhecidas (SROI, B Impact Assessment); governança de dados e diversidade no conselho. 

Para refletir 

  1. Sua organização mede ESG para aprender e decidir, ou apenas para reportar e proteger reputação? Se os relatórios somem, o que muda internamente? 
  1. Os bônus, promoções e orçamentos dos seus líderes reforçam a agenda sustentável, ou a sabotam silenciosamente? Quem, na prática, tem autoridade para mudar isso? 
  1. Em seu setor, quais “green swans” (tecnologias, modelos ou regulações hoje subestimados) podem virar vantagem competitiva decisiva antes que o mercado perceba? 

Para saber mais 

  • ELKINGTON, John. Green swans: the coming boom in regenerative capitalism. Nova York: Fast Company Press, 2020. 
  • PRINCIPLES FOR RESPONSIBLE INVESTMENT; UNEP FI. Fiduciary duty in the 21st century: final report. Londres: PRI; UNEP FI, 2019. Disponível em: https://www.unpri.org/policy/fiduciary-duty-in-the-21st-century. Acesso em: 14 abr. 2025. 
  • SOUTH POLE. The 2025 South Pole Net Zero Report: Corporate Climate Commitments. Zurique: South Pole, 2025. Disponível em: https://www.southpole.com/net-zero-report. Acesso em: 14 abr. 2025. 
  • EUROPEAN UNION. Council signs off simplification of sustainability reporting and due diligence requirements. Bruxelas: Conselho da UE, fev. 2025. Disponível em: https://www.consilium.europa.eu. Acesso em: 14 abr. 2025. 
  • UNILEVER. Annual Report and Accounts 2024. Londres: Unilever, 2025. Disponível em: https://www.unilever.com/investor-relations/annual-report-and-accounts. Acesso em: 14 abr. 2025. 
  • SERAFEIM, George; YOON, Aaron. Which corporate ESG news does the market react to? Financial Analysts Journal, v. 78, n. 1, p. 59–78, 2022. 
  • BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Cadastro Ambiental Rural (CAR): dados e relatórios. Brasília: MMA, 2024. Disponível em: https://www.car.gov.br. Acesso em: 14 abr. 2025. 

 

Luciel H de Oliveira 1 - ESG de verdade ou perfumaria corporativa?

Luciel Henrique de Oliveira é engenheiro Agrônomo e doutor em Administração (FGV), pós-doutorado em Inovação, dedicado à academia como professor e pesquisador desde 1990 (FACAMP; UNIFAE; PUC-MG). Com vasta experiência em Gestão de Operações e Logística, destacam-se seus estudos e pesquisas em temas como Inovação & IA, Agronegócios, Gestão de Serviços, Sustentabilidade/ESG, Economia Circular e Responsabilidade Social Empresarial. Comprometido com o impacto social, acredita no poder transformador da educação, na importância da colaboração em rede e no empreendedorismo para gerar mudanças positivas na sociedade mediante soluções inovadoras. Colunista EA “ESG & Vida Sustentável”. 

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