Por Luciel Henrique de Oliveira 

 

A Copa do Mundo terminou neste último domingo, com um show de espetáculos em campo com a vitória e consagração da Inglaterra frente à Argentina. Mas uma Copa não se decide apenas no gramado. Por trás dos gols, das festas e das transmissões globais, existe, sabemos, uma imensa operação de logística para garantir: energia, transporte, resíduos, trabalho, contratos, segurança e reputação. No século XX1, o verdadeiro placar de um megaevento também é medido pelo que ele deixa para o clima, para as pessoas e para as cidades.  

A Copa do Mundo não é apenas futebol. É uma enorme operação global de transporte, energia, consumo, turismo, segurança, alimentação, comunicação, contratos públicos, patrocínios e gestão de pessoas.  

Por isso, tornou-se um caso concreto para entender ESG: meio ambiente, responsabilidade social e governança. 

A Copa de 2026 será a maior da história: 48 seleções, 104 jogos e 16 estádios no Canadá, México e Estados Unidos.  

Mais jogos significam mais deslocamentos, mais consumo, mais resíduos, mais pressão sobre cidades e mais exposição reputacional. Do ponto de vista de sustentabilidade, a pergunta é:  

_“O evento deixará valor ou apenas pegadas ambientais, sociais e financeiras?” 

Dois pontos merecem atenção. 

O primeiro é o clima. A FIFA reconhece que o futebol já é afetado por ondas de calor, chuvas fortes, má qualidade do ar, danos a campos e interrupções no calendário. Isso vale para a Copa, mas também para empresas de logística, construção, turismo, alimentos, seguros, moda esportiva e entretenimento. Clima deixou de ser assunto de ambientalista; virou risco operacional. Um estádio sem conforto térmico, um aeroporto paralisado por tempestade, um centro urbano sem mobilidade e uma cadeia de suprimentos vulnerável podem comprometer o espetáculo e a reputação dos envolvidos. 

Aqui entra a economia circular. Em vez de organizar eventos pelo modelo “comprar, usar e descartar”, a lógica deve ser “planejar, reutilizar, recuperar e regenerar”.  

A própria história das Copas já oferece exemplos. No Brasil, em 2014, FIFA, Coca-Cola e cooperativas locais coletaram centenas de toneladas de resíduos recicláveis durante os jogos.             

Foi uma ação relevante, mas ainda limitada se comparada ao potencial de circularidade do evento inteiro. 

O salto gerencial é tratar circularidade antes do evento, e não apenas depois do lixo gerado.  

Isso significa contratar fornecedores com embalagens retornáveis, instalar pontos de reabastecimento de água, reduzir descartáveis, reaproveitar estruturas temporárias, medir emissões por torcedor, planejar transporte coletivo e exigir rastreabilidade de materiais.  

O aprendizado serve para feiras, shows, congressos, supermercados, hotéis, restaurantes, universidades e shoppings. Natura, com refis e logística reversa, e Adidas, com produtos feitos em parceria com a Parley a partir de resíduos plásticos, mostram que a circularidade pode sair do discurso e entrar no produto. 

O segundo ponto é o “S” do ESG. Megaeventos costumam prometer legado, mas também podem gerar precarização do trabalho, aumento de aluguéis, exclusão de moradores vulneráveis, abusos na segurança, discriminação e pouca transparência. Por isso, a Copa de 2026 incorporou planos de direitos humanos nas cidades-sede, com temas como inclusão, liberdade de expressão, moradia, segurança, direitos dos trabalhadores e canais de denúncia. 

Essa dimensão é especialmente útil para empresas.  

Toda organização que promove grandes campanhas, obras, eventos ou expansão territorial deveria perguntar: quem ganha, quem perde e quem assume o risco? Um shopping que realiza grandes eventos, uma construtora que entrega obra pública, uma rede hoteleira que cresce em cidade turística ou uma indústria que terceiriza serviços precisa mapear seus impactos sobre trabalhadores, vizinhança, consumidores e fornecedores. 

O ponto pragmático é simples: ESG não começa no relatório anual; começa no desenho da operação. Antes de contratar, licitar, patrocinar ou comunicar, a organização deve definir critérios: salário digno, segurança do trabalho, acessibilidade, diversidade, proteção de dados, gestão de resíduos, emissões, integridade contratual e mecanismos de reclamação. Isso reduz risco jurídico, melhora reputação e aumenta confiança. 

A bola rola dentro de campo, mas a sustentabilidade se decide fora dele: na mobilidade, no trabalho decente, na transparência e no uso inteligente dos recursos. 

A Copa também ensina uma lição de governança. Não basta anunciar metas verdes ou campanhas de inclusão. É preciso medir, auditar e prestar contas. Quantas emissões foram geradas? Quanto foi compensado? Quantos resíduos foram reciclados? Quantos fornecedores cumpriram critérios socioambientais? Quantas denúncias foram recebidas e resolvidas? Que infraestrutura continuará útil depois do evento? 

Empresas de qualquer setor podem adaptar essa lógica. Um hospital pode avaliar resíduos e condições de trabalho terceirizado. Uma escola pode medir consumo de energia, acessibilidade e compras responsáveis. Um agronegócio pode rastrear fornecedores, água, carbono e relações com comunidades. Uma prefeitura pode aplicar critérios ESG em festas, feiras e obras públicas. 

A Copa do Mundo emociona porque mobiliza paixões.  

Mas, no século XXI, paixão sem responsabilidade não sustenta legitimidade. A bola rola no campo, mas o placar ESG aparece fora dele: nas emissões, nos contratos, nos trabalhadores, nos resíduos, na mobilidade, na transparência e no legado real para as cidades. 

No fim, a grande provocação é esta: não há espetáculo neutro. Cada ingresso vendido, cada marca patrocinadora, cada contrato assinado, cada deslocamento feito e cada produto consumido ajuda a definir que tipo de Copa, e que tipo de economia estamos sustentando. Se torcedores, empresas, governos e organizadores celebram juntos a grandeza do futebol, também devem assumir juntos a responsabilidade por seus impactos. A Copa passa; o legado fica. E é nele que se mede a verdadeira vitória. 

ESG não é adereço de relatório, peça de marketing ou discurso para dias de evento.  

É o teste concreto que revela se um grande espetáculo, ou qualquer organização, entrega valor público, responsabilidade e legado.  

A pergunta que fica para gestores, empreendedores, patrocinadores e consumidores é direta: – “Estamos ajudando a construir práticas mais sustentáveis ou apenas aplaudindo consumo acelerado, promessas vazias e passivos que alguém terá de pagar depois?” 

Para refletir 

  1. Sua organização mede os impactos ambientais e sociais dos eventos, campanhas ou projetos que realiza? 
  1. Os fornecedores estratégicos da sua empresa seriam aprovados em uma auditoria ESG séria? 
  1. O que sua organização chama de “legado” é valor público mensurável ou apenas narrativa de marketing? 
  1. Ao vestir a camisa, comprar produtos oficiais, viajar para os jogos ou assistir às transmissões, você está apenas torcendo pelo seu time, ou também validando a forma como esse espetáculo trata o clima, os trabalhadores, as cidades e as comunidades que o recebem? 
  1. Se o futebol mobiliza bilhões de pessoas no mundo, por que ainda aceitamos ser apenas consumidores passivos do espetáculo, e não cidadãos capazes de cobrar transparência, inclusão, responsabilidade ambiental e legado real de quem lucra com a nossa paixão? 

Para saber mais  

CENTRE FOR SPORT AND HUMAN RIGHTS; CLIFFORD CHANCE. The promise of a positive legacy: the 2026 FIFA World Cup host city candidates’ human rights plans. Londres: CSHR; Clifford Chance, 2022. 

ELLEN MACARTHUR FOUNDATION. The circular economy: definition and model explained. Cowes: Ellen MacArthur Foundation, 2024. 

FIFA. FIFA Climate Strategy: making football climate resilient and mitigating our impact on climate change. Zurich: FIFA, 2021. 

FIFA. FIFA World Cup 26 Sustainability & Human Rights Strategy. Zurich: FIFA, 2024. 

ISO. ISO 20121:2024: Event sustainability management systems — Requirements with guidance for use. Geneva: International Organization for Standardization, 2024. 

UNITED NATIONS CLIMATE CHANGE. Sports for Climate Action FrameworkBonn: UNFCCC, 2021. 

 

Luciel H de Oliveira 1 - A bola também cobra ESG: o placar invisível da sustentabilidade

Luciel Henrique de Oliveira é engenheiro Agrônomo e doutor em Administração (FGV), pós-doutorado em Inovação, dedicado à academia como professor e pesquisador desde 1990 (FACAMP; UNIFAE; PUC-MG). Com vasta experiência em Gestão de Operações e Logística, destacam-se seus estudos e pesquisas em temas como Inovação & IA, Agronegócios, Gestão de Serviços, Sustentabilidade/ESG, Economia Circular e Responsabilidade Social Empresarial. Comprometido com o impacto social, acredita no poder transformador da educação, na importância da colaboração em rede e no empreendedorismo para gerar mudanças positivas na sociedade mediante soluções inovadoras. Colunista EA “ESG & Vida Sustentável”. 

www.linkedin.com/in/lucieloliveira 

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