Por João Casarri Neto
Muitas vezes, o maior desafio dos profissionais 50+ não é continuar trabalhando. É continuar se sentindo parte.
Quando falamos sobre profissionais 50+, é comum que as discussões girem em torno da empregabilidade, da atualização profissional, da longevidade no mercado de trabalho ou dos desafios impostos pelo etarismo. Todos esses temas são importantes e merecem atenção.
Mas existe uma questão menos visível, mais silenciosa e, talvez por isso mesmo, mais difícil de ser percebida: a sensação de isolamento profissional.
Curiosamente, ela pode surgir mesmo quando tudo parece estar bem.
O profissional continua empregado. Possui experiência reconhecida. Entrega resultados. Participa das reuniões. Cumpre suas metas. Do lado de fora, nada parece indicar um problema.
Por dentro, porém, a percepção pode ser diferente.
Aos poucos, alguns profissionais começam a sentir que já não participam das conversas mais relevantes. Percebem que determinados projetos deixam de chegar até eles. Notam que suas opiniões já não são solicitadas com a mesma frequência de antes. Observam novos grupos se formando e, sem que exista qualquer exclusão explícita, sentem que deixaram de fazer parte deles.
Não se trata necessariamente de preconceito.
Também não é, obrigatoriamente, um caso de etarismo.
Muitas vezes, é apenas o resultado de mudanças organizacionais, transformações geracionais e novas dinâmicas de relacionamento que acabam produzindo um fenômeno silencioso: a perda da sensação de pertencimento.
E pertencimento é uma necessidade humana.
Gostamos de acreditar que o trabalho se resume a metas, processos, indicadores e resultados. Mas a verdade é que as pessoas também permanecem em uma organização porque se sentem conectadas a ela. Permanecem porque encontram significado no que fazem, porque se sentem ouvidas, valorizadas e incluídas.
Quando essa conexão enfraquece, algo importante começa a se perder.
O profissional continua presente fisicamente, mas emocionalmente vai se afastando.
A energia diminui.
O entusiasmo reduz.
A disposição para contribuir além do necessário enfraquece.
E, em muitos casos, o desejo de continuar construindo uma trajetória dentro daquela organização começa a desaparecer.
Talvez uma das perguntas mais importantes para líderes e empresas seja: o que acontece quando um profissional experiente deixa de se sentir pertencente?
A resposta é simples e preocupante ao mesmo tempo.
Perde o profissional.
Perde a equipe.
Perde a organização.
Perde-se conhecimento acumulado ao longo de décadas.
Perdem-se referências culturais.
Perdem-se histórias que ajudam a compreender decisões, sucessos e fracassos do passado.
Perdem-se perspectivas que poderiam enriquecer a tomada de decisão.
E perde-se algo ainda mais valioso: a oportunidade de promover uma verdadeira integração entre gerações.
Em um momento em que as organizações convivem com profissionais de diferentes faixas etárias trabalhando lado a lado, a diversidade geracional tornou-se uma realidade. Entretanto, a simples coexistência de gerações não garante troca de experiências.
Ela só acontece quando existe conexão.
Quando existe espaço para diálogo.
Quando existe interesse genuíno em aprender com o outro.
A inclusão não acontece porque diferentes gerações ocupam o mesmo espaço; ela acontece quando existe interação genuína entre elas.
Compartilhar o mesmo ambiente de trabalho não significa, necessariamente, construir relações. Da mesma forma, reunir profissionais de diferentes idades em uma equipe não garante que haverá aprendizado mútuo, troca de conhecimento ou sentimento de pertencimento.
A verdadeira riqueza da diversidade geracional surge quando as pessoas se sentem à vontade para dialogar, ensinar, aprender e construir juntas. É nesse momento que a experiência dos profissionais mais seniores encontra novas perspectivas, enquanto as gerações mais jovens ampliam sua visão por meio de vivências que os livros, os cursos e a tecnologia não conseguem oferecer.
Por isso, os líderes têm um papel fundamental.
Nem sempre os sinais de isolamento profissional são evidentes. Eles raramente aparecem nos relatórios ou nos indicadores de desempenho.
Frequentemente, eles se manifestam em pequenos comportamentos: uma participação mais discreta nas reuniões, uma redução na iniciativa para sugerir melhorias, um afastamento gradual das interações informais ou uma aparente falta de entusiasmo diante de novos desafios.
São sinais sutis, mas que merecem atenção.
Liderar também significa perceber quando alguém continua entregando resultados, mas já não demonstra o mesmo nível de conexão com o ambiente ao seu redor.
Da mesma forma, os próprios profissionais seniores podem refletir sobre o tema.
Em alguns casos, a sensação de afastamento não está apenas relacionada ao comportamento da organização. Ela também pode surgir quando o profissional reduz sua disposição para construir novas conexões, aprender novas linguagens ou se aproximar de colegas de outras gerações.
Pertencimento é uma construção coletiva.
Ele depende da abertura da empresa, da atuação da liderança, mas também e principalmente da iniciativa individual.
Profissionais seniores não precisam competir com os mais jovens. Também não precisam viver em uma permanente tentativa de provar seu valor. Sua contribuição se fortalece quando continuam construindo relacionamentos, compartilhando experiências, aprendendo com as transformações do mundo do trabalho e criando conexões entre diferentes gerações.
A experiência acumulada ao longo da vida profissional não afasta pessoas. Quando colocada a serviço do coletivo, ela aproxima, inspira e conecta.
Em um mercado cada vez mais preocupado com a longevidade profissional, é chegada a hora de ampliarmos essa discussão.
Porque permanecer ativo é importante.
Continuar aprendendo também.
Mas existe uma pergunta que merece a mesma atenção:
Os profissionais 50+ que permanecem nas organizações, continuam se sentindo parte delas?
A resposta para essa pergunta pode definir não apenas a qualidade da experiência profissional desses profissionais, mas também a capacidade das organizações de preservar aquilo que possuem de mais valioso: as pessoas e as conexões que elas constroem ao longo do tempo.

João Casarri Neto é economista, consultor de RH/TI, analista comportamental DISC, coach, mentor, treinador de líderes, e Practitioner PNL. Autor do livro “Os 5 Princípios da Resiliência”, é também criador do programa “Sou Líder, e Agora?” para ajudar líderes em início de carreira. É Embaixador de Inovação e Tecnologia da Associação Brasileira dos Profissionais de RH (HUBRH+ABPRH). Colunista EA “Geração 50+”.
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