Por Luciel Henrique de Oliveira
A ideia de que o egoísmo individual, deixado livre, produz automaticamente bons resultados coletivos ainda ocupa espaço relevante no discurso econômico e empresarial. No entanto, evidências vindas da biologia evolutiva, da economia institucional e das práticas contemporâneas de ESG apontam em outra direção: sistemas complexos (organismos vivos, sociedades ou mercados) só prosperam quando existem mecanismos claros de cooperação, controle de desvios oportunistas e fortalecimento do bem coletivo. Esse é o ponto central discutido por Jag Bhalla em The Other Invisible Hand (Noēma) e retomado por Deirdre McCloskey ao criticar leituras simplificadas de Adam Smith.
Na biologia, a lógica é direta: organismos sobrevivem porque a seleção natural favorece conjuntos cooperativos e pune comportamentos egoístas que colocam o todo em risco.
Células cancerígenas são o exemplo clássico: ao romperem o “contrato social” do organismo, crescem rapidamente, mas acabam levando o sistema à morte, inclusive a si próprias. Microrganismos extremamente letais não se disseminam com facilidade; vírus mais “moderados” tendem a se perpetuar. A seleção, portanto, opera fortemente no nível do grupo, e não apenas do indivíduo.
Quando transportamos essa lógica para a economia e para as organizações, a analogia é clara. Empresas, cadeias produtivas e mercados funcionam como sistemas vivos. Estratégias baseadas exclusivamente em maximização de lucro de curto prazo, exploração predatória de recursos ou captura oportunista de valor tendem a gerar ganhos momentâneos, mas corroem a base que sustenta o negócio no médio e longo prazo. Crises financeiras recorrentes, colapsos ambientais e perda de legitimidade social são sintomas desse desequilíbrio.
É nesse contexto que a agenda ESG deixa de ser discurso e se torna ferramenta estratégica.
Governança sólida, práticas ambientais responsáveis e relações sociais equilibradas funcionam como os “mecanismos imunológicos” das organizações. Elas reduzem comportamentos oportunistas, alinham interesses individuais aos coletivos e aumentam a resiliência do sistema. Não se trata de altruísmo ingênuo, mas de racionalidade sistêmica.
Exemplos práticos ajudam a concretizar essa ideia. A Unilever, ao incorporar metas ambientais e sociais em suas marcas (como Dove e Ben & Jerry’s), mostrou que produtos alinhados a valores coletivos tendem a apresentar desempenho superior no longo prazo. A Natura, ao estruturar sua cadeia de suprimentos com comunidades da Amazônia, reduziu riscos, fortaleceu fornecedores e construiu uma marca global baseada em confiança e sustentabilidade. No setor financeiro, cooperativas como o Sicredi e o Rabobank demonstram que modelos orientados ao coletivo podem ser competitivos e financeiramente sólidos.
O mesmo raciocínio vale para setores intensivos em recursos naturais, como agronegócio, mineração e energia. Iniciativas de agricultura regenerativa, rastreabilidade de cadeias produtivas e redução de emissões não são apenas respostas a pressões regulatórias ou reputacionais. São estratégias de sobrevivência econômica. Empresas que ignoram esses sinais enfrentam restrições de mercado, dificuldades de financiamento e perda de competitividade. Investidores institucionais, como a BlackRock, já deixam claro que riscos climáticos e sociais são riscos financeiros.
A leitura equivocada de Adam Smith, resumida na frase “a ganância é boa”, perde força diante dessas evidências. Smith jamais defendeu o egoísmo irrestrito; ao contrário, em “A Teoria dos Sentimentos Morais”, enfatizou empatia, normas sociais e justiça como fundamentos da vida econômica. A chamada “outra mão invisível”, descrita por Bhalla (2023), reforça essa visão: a prosperidade emerge quando regras, valores e instituições limitam o egoísmo destrutivo e favorecem a cooperação.
Para gestores e empreendedores, a implicação é pragmática: ESG não deve ser tratado como relatório acessório ou ação de marketing, mas como arquitetura organizacional.
Significa desenhar incentivos, métricas e processos que alinhem desempenho econômico ao desempenho socioambiental. Significa investir em governança, transparência, inovação sustentável e relações de longo prazo com stakeholders.
Em outras palavras, agir como sistemas vivos bem-adaptados, e não como células oportunistas em um organismo em colapso.
Questões para refletir
- Se a biologia mostra há séculos que o egoísmo sem limites leva à extinção, por que ainda insistimos em chamar isso de estratégia racional na economia e na política?
- Até que ponto as estratégias da sua Organização reforçam o sistema como um todo ou apenas extraem valor no curto prazo?
- Quais “comportamentos cancerígenos” — internos ou na cadeia de valor — ainda são tolerados em nome de resultados imediatos?
- ESG está sendo usado como ferramenta real de gestão ou apenas como narrativa para atender expectativas externas?
Para saber mais (referências em ABNT):
- BHALLA, Jag. The Other Invisible Hand: Why all life limits certain kinds of selfishness. Noēma Magazine, 2023. Disponível em: https://www.noemamag.com. Acesso em: jan. 2026.
- MCCLOSKEY, Deirdre N. The Bourgeois Virtues: Ethics for an Age of Commerce. Chicago: University of Chicago Press, 2006.
- SMITH, Adam. A teoria dos sentimentos morais. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
- PORTER, Michael E.; KRAMER, Mark R. Creating Shared Value. Harvard Business Review, v. 89, n. 1/2, 2011.
- ELKINGTON, John. Green Swans: The Coming Boom in Regenerative Capitalism. Fast Company Press, 2020.

Luciel Henrique de Oliveira é engenheiro Agrônomo e doutor em Administração (FGV), pós-doutorado em Inovação, dedicado à academia como professor e pesquisador desde 1990 (FACAMP; UNIFAE; PUC-MG). Com vasta experiência em Gestão de Operações e Logística, destacam-se seus estudos e pesquisas em temas como Inovação & IA, Agronegócios, Gestão de Serviços, Sustentabilidade/ESG, Economia Circular e Responsabilidade Social Empresarial. Comprometido com o impacto social, acredita no poder transformador da educação, na importância da colaboração em rede e no empreendedorismo para gerar mudanças positivas na sociedade mediante soluções inovadoras. Colunista EA “ESG & Vida Sustentável”.
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