Por Toni Carlos Dias

 

A gestão contemporânea vive um paradoxo fascinante: a hiperconectividade — o acesso a um volume de dados e informações sem precedentes — não está gerando, automaticamente, melhores decisões. Pelo contrário, muitas organizações se encontram presas em um ciclo de atividade incessante, onde o “fazer” substitui o “entender”.

Como Peter Drucker já alertava em 1974, informação não é sinônimo de conhecimento, e muito menos de sabedoria organizacional. O problema não é a falta de dados, mas sim a manutenção de um “centro epistemológico” ultrapassado, um ponto fixo de observação que impede as empresas de enxergarem a si mesmas e seus desafios com clareza.

Assim como o geocentrismo limitava a astronomia pré-copernicana, o que chamamos de “geocentrismo corporativo” limita a gestão moderna. As empresas insistem em girar em torno de princípios e métricas que já não explicam — nem resolvem — seus desafios atuais.

1. O Preço da hiperconexão: atividade sem estratégia

A literatura em neurociência e psicologia cognitiva, como os estudos de Daniel Kahneman, mostra que ambientes saturados de estímulos reduzem drasticamente a capacidade de processamento cognitivo. No mundo corporativo, isso se traduz em:

  • Decisões reativas: Líderes expostos a um fluxo constante de notificações e demandas tendem a tomar decisões no calor do momento, perdendo a perspectiva estratégica.
  • Pseudoengajamento: Muita atividade, pouca reflexão; muitos dados, pouca interpretação; muitas reuniões, pouco sentido compartilhado.

A hiperconectividade induz a um operacionismo exagerado, no qual o fluxo de trabalho se transforma em um objetivo final. Para quebrar esse ciclo, é preciso uma ação radical: a pausa epistemológica, um conceito próximo às “janelas de reflexão” sugeridas por Henry Mintzberg. Desconectar não é fugir, mas sim um procedimento cognitivo essencial para suspender o automatismo organizacional e recuperar o discernimento.

2. O deslocamento copernicano: mudar o centro para mudar o sistema

A revolução de Nicolau Copérnico não mudou o universo; mudou o ponto de referência a partir do qual o observador via o universo. Ao deslocar o centro do sistema da Terra para o Sol, ele reorganizou todo o objeto observado.

Essa é a metáfora exata para a transformação que as organizações precisam realizar hoje. Não basta apenas adicionar novas ferramentas, processos ou indicadores. É fundamental mudar o centro a partir do qual a organização interpreta seus próprios fenômenos.

Grandes pensadores da gestão realizaram esse “deslocamento de centro”:

Pensador Centro Antigo Novo Centro (Deslocamento) Impacto na Gestão
Henry Ford Habilidade Individual Fluxo Contínuo (Linha de Montagem) Produção em Massa e Eficiência Operacional
Peter Drucker Capital Físico Conhecimento (Trabalhador do Conhecimento) Ênfase na Produtividade Intelectual e Inovação
Jack Welch Hierarquia Rígida Indicadores de Performance e Meritocracia Cultura de Alta Performance e Foco em Resultados
Alvin Toffler Eixo Temporal Estático Leitura Antecipatória do Ambiente Gestão da Mudança e Visão de Futuro

Assim como Copérnico, eles redefiniram a forma de pensar organizações, provando que mudar a posição do observador é o que, de fato, muda o sistema.

3. A falha epistemológica: por que o centro fixo custa caro

O problema de manter um centro fixo não é apenas operacional; é epistemológico. Quando o centro não se move, a organização:

  1. Toma decisões baseadas em padrões ultrapassados.
  2. Substitui estratégias estruturais por agendas emergenciais.
  3. Reage ao ambiente em vez de interpretá-lo e moldá-lo.
  4. Desenvolve uma rigidez cultural, apegando-se a valores que já não explicam sua realidade.

O resultado é a repetição de conflitos e a incapacidade de adaptação contínua.

4. O mecanismo central: desconectar para reconectar

O primeiro passo para o deslocamento é a interrupção do fluxo. Nenhum sistema pode ser compreendido enquanto está em execução sem pausa. Desconectar é criar um espaço deliberado para:

  • Análise profunda e reinterpretação de indicadores.
  • Identificação de padrões ocultos e formulação de novas perguntas.
  • Suspensão de vieses cognitivos.

Somente após essa reflexão é possível reconectar — agora de forma qualificada, seletiva e alinhada a propósitos estratégicos. Reconectar sem desconectar é apenas retornar ao mesmo erro com mais velocidade.

5. O deslocamento como competência essencial

O sucesso do deslocamento depende de três competências nucleares na liderança contemporânea:

Competência Definição Aplicação na Gestão
Interpretativa Habilidade de distinguir ruído de informação (Weick). Filtrar o excesso de dados e focar no que realmente importa para a estratégia.
Reflexiva Capacidade de revisar premissas antes de revisar ações (Schön). Questionar o porquê das ações e não apenas o como.
Adaptativa Disposição de ajustar o centro de observação conforme o contexto muda (Toffler). Manter a flexibilidade para reconfigurar o olhar coletivo da organização.

A liderança moderna não se define mais pela autoridade, mas pela capacidade de reconfigurar o olhar coletivo da organização.

6. Conclusão: O centro é a chave

O maior obstáculo das organizações não está no mercado, na tecnologia ou na escassez de recursos. Está na posição epistemológica a partir da qual elas observam a si mesmas.

Mover o centro — o gesto copernicano na gestão — permite que a organização:

  • Identifique seus problemas reais.
  • Compreenda seus padrões de funcionamento.
  • Reduza tensões internas.
  • Tome decisões mais racionais e adaptativas.

O gesto é simples, mas profundo: interromper o fluxo, suspender o automatismo, mover o centro e reorganizar o sentido.

Assim como no heliocentrismo, mudar o centro não é apenas mudar o referencial — é mudar o mundo que emerge a partir desse referencial. E nas organizações, como na ciência, mudar o centro é, de fato, mudar tudo.

 

toni carlos - Mude o centro, mude tudo | A Revolução Copernicana na Gestão

Toni Carlos Dias é um Ser Humano formado em Administração de Empresas, MBA em Gestão de Pessoas e Ciências Políticas, defende uma nova lógica corporativa baseada na colaboração. Cineasta independente, produziu seis curtas-metragens exibidos em festivais brasileiros. Atualmente, é professor de pós-graduação na FIA, onde ministra Qualidade de Vida no Trabalho Virtual, além de ser Bolsista no Programa de Agente Local de Inovação (Sebrae-RJ). Atuou em grandes empresas como Eletronuclear, Siemens e Ambev. É colunista EA “Fronteiras Curiosas”.

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