Por Djairo Gonçalves

 

Há muitos anos, uma comédia aparentemente ingênua (“Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias”) mostrava um homem criando múltiplas versões de si mesmo para conseguir responder às exigências da vida.

Revisitando alguns aspectos da minha própria trajetória: formação acadêmica, empreendedorismo, negócios, espiritualidade, relacionamentos, liderança e até meus momentos de silêncio, às vezes me dá a impressão de que talvez todos nós corramos, em algum grau, o risco de nos fragmentarmos na tentativa de corresponder às múltiplas exigências da nossa existência.

Nos adaptamos para sobreviver, prosperar, sermos aceitos, reconhecidos, admirados ou simplesmente funcionais.

Desenvolvemos habilidades, linguagens emocionais, posturas e formas de atuação que nos permitem navegar pelos diferentes ambientes da vida. E isso não é necessariamente um problema. Carl Gustav Jung chamava de persona essa estrutura psíquica que utilizamos para nos relacionarmos com o mundo.

A persona não é uma inimiga. Ela é uma estrutura necessária.

O executivo, o líder, o negociador, o professor, o homem contemplativo, o buscador espiritual, o pai, o amigo, todos representam dimensões legítimas da experiência humana. O risco talvez comece quando deixamos de utilizar essas estruturas como ferramentas adaptativas e passamos a nos confundir completamente com elas.

Talvez o ambiente corporativo contemporâneo potencialize esse fenômeno de maneira silenciosa.

Durante anos, somos treinados para desenvolver eficiência, velocidade, previsibilidade emocional, capacidade de decisão, resistência à pressão, entre tantas outras habilidades. E essas competências possuem enorme valor. O problema começa quando permitimos que a lógica da performance, pessoal ou profissional, deixe de ser uma ferramenta adaptativa e passe a se tornar nossa forma mais adaptada de existir e nos relacionarmos.

Aos poucos, algumas relações começam a ser vividas sob a mesma estrutura psíquica: controle, produtividade, antecipação de risco, performance e resultado. O executivo continua executivo mesmo quando já não existe nenhuma reunião acontecendo.

O gerente de projetos continua gerenciando projetos quando o projeto é andar de bicicleta com o filho.

Talvez uma das formas mais sutis de fragmentação seja justamente perdermos a capacidade de transitar entre papéis diferentes sem permanecermos aprisionados ou fusionados em nenhum deles.

Revisitando minha própria trajetória, percebo quantas vezes também me confundi com versões de mim mesmo que foram importantes em determinados períodos da vida, mas que silenciosamente começaram a reivindicar o lugar de identidade definitiva.

Por muito tempo, imaginei que integração significasse eliminar contradições e alcançar algum estado definitivo de coerência absoluta. Hoje penso diferente. Talvez o objetivo não seja nos tornarmos perfeitamente inteiros, mas inteiros o suficiente para atravessarmos a complexidade da vida sem nos perdermos completamente de nós mesmos.

Pra mim, esse pequeno deslocamento de perspectiva em nosso caleidoscópio psíquico muda tudo. Nos torna mais humanos.

Ser “inteiros o suficiente” não significa ausência de medo, insegurança ou ambivalência. Significa desenvolver consciência suficiente para perceber quando estamos endurecendo, fugindo, performando excessivamente ou deixando que antigas defesas assumam o controle da nossa experiência.

Talvez autoconhecimento não seja um exercício interminável de introspecção narcísica, mas algo muito mais funcional e prático como:

  • Perceber os próprios gatilhos
  • Reconhecer padrões e comportamentos automáticos
  • Entender onde tendemos ao controle excessivo
  • Identificar os lugares onde o medo se disfarça de competência
  • Perceber quando a mesma persona começa a ocupar todos os espaços da nossa vida

Existe uma diferença profunda entre coerência e rigidez.

Uma pessoa integrada não reage da mesma forma em todos os ambientes. Pelo contrário. Ela desenvolve a capacidade de adaptar sua expressão sem romper completamente sua relação consigo mesma.

Pode existir firmeza em uma negociação e suavidade em uma relação afetiva. Liderança em um contexto profissional e silêncio contemplativo em uma prática espiritual. Ambição no mundo dos negócios e, ao mesmo tempo, profundo respeito pela simplicidade da vida.

Talvez seja justamente isso que muitas pessoas chamam intuitivamente de flow: um estado em que deixamos de atuar apenas como personagens desconectados e começamos a desenvolver presença suficiente para responder ao momento sem abandonar completamente quem somos, ou aquilo que, aos poucos, começamos a perceber sobre nós mesmos.

Mas isso exige disponibilidade interna.

Exige diminuir a necessidade constante de proteção.

Exige sustentar alguma abertura para o novo sem perder discernimento.

Exige coragem para reconhecer vulnerabilidades sem transformar fragilidade em identidade ou vitimismo.

Em minha própria trajetória, percebi que alguns períodos difíceis funcionaram menos como punição e mais como processos de depuração.

Muitas coisas que antes pareciam fundamentais perderam importância. Outras ganharam profundidade: caráter, presença, tempo, saúde, verdade emocional, relações humanas genuínas e uma sensação mais integrada da existência.

Isso não eliminou minha ambição. Continuo gostando do mundo, do mundo dos negócios, dos grandes projetos, das possibilidades, dos desafios, das conquistas e da construção de valor. Mas talvez tenha mudado a forma como desejo habitar esses espaços. Não mais como alguém que precise provar valor o tempo inteiro, mas como alguém buscando maior coerência entre prosperidade, relacionamentos, consciência e humanidade.

Não é incomum confundirmos intensidade com urgência, identidade com performance e sucesso com aparência ou acúmulo. Talvez por isso tantas pessoas se sintam constantemente cansadas mesmo quando aparentemente “venceram”.

No fundo, a pergunta permanece ressoando em meus pensamentos:

Como me tornar inteiro o suficiente para atravessar a complexidade da vida sem perder a paixão, a capacidade de presença, a compaixão e uma verdade interior ainda em formação?

Talvez não exista uma resposta final. Talvez individuação não seja encontrar o “eu verdadeiro” escondido sob as máscaras (personas), mas construir uma relação cada vez mais consciente e verdadeira com os personagens que fomos criando para existir no mundo.

 

djairo e1726689094986 - Eu, meu eixo e minhas personas

Djairo Gonçalves é psicoterapeuta com orientação Junguiana, e hipnoterapeuta. Atua apoiando pessoas em suas questões pessoais e profissionais. Realiza treinamentos, palestras, encontros e retiros com foco no aprimoramento de habilidades comportamentais (soft skills). Pós-graduado em Psicologia Analítica com MBA na Westminster University, Salt Lake City, USA. Pós-graduado em Marketing (ESPM-SP) com graduação em Administração de Empresas (Universidade Metodista). Mais de 25 anos trabalhando no segmento Financeiro e em consultorias estratégicas e de Recursos Humanos. Colunista EA “Espaço Caleidoscópio”.

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