Por Judá Nunes
Maria Ruanes Coelho, arquivo pessoal
Esta é a primeira entrevista de uma série de diálogos sobre temas que moldam a nossa sociedade, cujo propósito é escutar quem está na linha de frente das transformações, entender os seus percursos e aprender com suas escolhas. Quero investigar como esses protagonistas da vida real imaginam e constroem o futuro na prática – sem atalhos ou discursos vazios –, a partir da vivência, da crítica e do compromisso com mudanças. O que já foi feito? O que ainda falta?
E, sobretudo, construir conhecimento sobre como podemos sair do campo das ideias e agir de forma concreta.
Para iniciar essa jornada, conversei com Maria Ruanes Coelho, cientista social e mestre em Antropologia Social. Ela é coordenadora de projetos sociais da Fundação Grupo Volkswagen. Maria tem ampla experiência no Terceiro Setor e pesquisa a temática da mobilidade urbana e parentesco, sempre com um olhar atento para a inclusão produtiva.
A mobilidade social se refere à mudança de posição socioeconômica de um indivíduo ou grupo, podendo ocorrer para cima, com ganhos de renda e status, ou para os lados, com mudanças na qualidade de vida sem alteração na posição social. O deslocamento urbano, por sua vez, lida com as movimentações dentro das cidades por razões como trabalho ou moradia.
Para muitas pessoas trans, esses dois conceitos estão interligados, pois mudar de lugar significa, muitas vezes, garantir a própria sobrevivência.
Maria compartilhou que “foi preciso construir uma solitude para encontrar um espaço no mundo”, destacando como a sua transição de gênero – e seus deslocaentos físicos – foram processos entrelaçados. Para muitas pessoas trans, a mobilidade social não se trata apenas de ascensão financeira, mas de buscar um ambiente seguro para existir plenamente.
#1 | Como os deslocamentos em sua trajetória influenciaram sua visão sobre mobilidade social, especialmente para pessoas trans?
Maria Ruanes Coelho Eu pesquisei deslocamento urbano na minha dissertação e, olhando para minha própria história, percebi que a minha pesquisa também estava profundamente ligada aos meus próprios deslocamentos. Mudei de cidade, me reconfigurei, fui entendendo minha identidade ao longo desses trajetos. A transição, para mim, foi um processo simultâneo de movimentação e afirmação. Muitas vezes, falamos sobre transição como um marco fixo, mas, na verdade, é um processo contínuo.
A minha identidade trans, negra e travesti apareceu publicamente depois da minha dissertação, mas sempre esteve presente nos caminhos que trilhei. Na prática, a mobilidade social costuma ser vista de forma economicista: um conceito que tenta medir o quanto uma pessoa pode mudar de classe social ao longo da vida. Mas, olhando a partir da minha experiência, vejo que a mobilidade social não pode ser reduzida a apenas ascensão financeira. Ela está profundamente ligada à nossa capacidade de existir plenamente, de construir espaços onde podemos ser quem somos sem precisarmos passar por deslocamentos forçados ou marginalização.
#2 | Mobilidade social pode resolver problemas estruturais ou apenas emergenciais?
Maria Ruanes Coelho Depende de como a encaramos. Se pensarmos apenas na mobilidade individual – como no caso de uma pessoa que sai de uma condição de pobreza para uma melhor renda – ela não muda a estrutura social. Mas, se olharmos a mobilidade social como parte de um processo de luta coletiva, aí sim ela pode ter impacto estrutural. O sistema econômico em que vivemos cria desigualdades, e a mobilidade social aparece, muitas vezes, como um mecanismo para suavizar essas desigualdades sem questionar sua raiz. Isso gera a falsa ideia de que basta uma pessoa “se esforçar” para mudar de vida, ignorando os múltiplos recortes que impactam essa trajetória, como raça, gênero e território.
A mudança estrutural vem quando a mobilidade social não é tratada apenas como um mérito individual, mas como parte de um processo maior, no qual os avanços individuais resultam em avanços coletivos. O problema é que o próprio sistema precisa manter desigualdades para funcionar – e é aí que entra a contradição.
#3 | Quais desafios existem para que investimentos sociais realmente transformem vidas?
Maria Ruanes Coelho O primeiro desafio é entender que nenhuma empresa ou investimento isolado vai mudar a realidade. A transformação vem da convergência de esforços entre empresas, setor público, organizações sociais e as próprias comunidades. Outro ponto é que os investimentos sociais privados muitas vezes vêm com “carimbos”, ou seja, são direcionados para áreas que fazem sentido para o marketing das empresas – não necessariamente para as reais necessidades das comunidades.
Muitas dessas ações são pensadas para gerar impacto visual e atender exigências de ESG, mas não dialogam com quem está na ponta. Além disso, os valores destinados ao investimento social ainda são muito baixos em comparação ao lucro das empresas. Então, o que vemos são estratégias mais voltadas para mitigar crises do que para transformações reais e contínuas.
#4 | Como as empresas podem se conectar melhor com as comunidades?
Maria Ruanes Coelho Falta encarar a responsabilidade social como algo concreto e não apenas como uma estratégia de marketing. Muitas empresas preferem ações superficiais que gerem boa reputação em vez de enfrentar o impacto real de suas atividades. As relações produtivas das empresas geram desigualdades, mas, em vez de assumirem responsabilidade sobre isso, muitas preferem criar iniciativas paliativas.
Precisamos que elas realmente se responsabilizem pelos efeitos que causam no mundo e isso inclui mudar as suas formas de operar e passar a investir de maneira mais estratégica e contínua nas comunidades.
#5 | Como podemos agir coletivamente para promover mudanças reais?
Maria Ruanes Coelho A chave está em reconhecer as responsabilidades de cada grupo na sociedade. Existe uma distribuição desigual de poder e de impacto, e as pessoas que mais sofrem as consequências dessas desigualdades são justamente as que menos têm condições de mudá-las sozinhas. Enquanto não houver uma responsabilização real por parte daqueles que concentram poder e riqueza, continuaremos empurrando o peso das mudanças para quem já carrega o maior fardo. E isso precisa mudar.
O futuro coletivo só é possível quando todos reconhecem seu papel na transformação e trabalham ativamente para redistribuir recursos, oportunidades e direitos.
Judá Nunes é inovadora social, licenciada em Teatro pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Especialista em Educação para Inclusão da Diversidade, analista de ESG e reconhecida como LinkedIn Top Voices Orgulho. Tem atuado como educadora, gestora de projetos, comunicadora, escritora, palestrante e consultora; se destaca como mentora de um novo tempo, oferecendo insights sobre a dinâmica da diversidade no século XXI. Desde 2016, seus estudos em Gênero, Educação, Movimentos Sociais, Trabalho e Transformação Humana culminaram no desenvolvimento de uma metodologia exclusiva e crítico-analítica para a formação de executivos na educação corporativa e para a gestão de projetos de impacto social, com foco em DEI. Sua paixão pela promoção da inclusão reflete-se em sua missão de comunicar e impactar positivamente, eliminando barreiras e conscientizando sobre vieses. Colunista EA “Letramentos em Futuro”.
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