Por Luciel Henrique de Oliveira

 

A Campanha da Fraternidade 2025, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), escolheu o tema “Fraternidade e Ecologia Integral” e o lema “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). Esta iniciativa destaca a urgência de uma conversão ecológica diante da crise socioambiental atual, enfatizando a interconexão entre meio ambiente, sociedade e espiritualidade.​

Ecologia Integral é um conceito que vai além da sustentabilidade ambiental, abordando a interconexão entre meio ambiente, sociedade, economia e cultura. Ele propõe que todas as decisões e ações humanas devem considerar o impacto global nos ecossistemas e nas comunidades, promovendo um desenvolvimento equilibrado e justo.

O termo foi amplamente difundido pelo Papa Francisco, em 2015, na encíclica Laudato Si’, que defende a necessidade de uma “conversão ecológica” para enfrentar a crise socioambiental.

A Ecologia Integral propõe que cuidar do meio ambiente não é um ato isolado, mas sim parte de um modelo sustentável que beneficia empresas, comunidades e o planeta. Implementar esse conceito significa adotar práticas responsáveis que gerem valor econômico, social e ambiental ao mesmo tempo.

Ecologia integral no contexto empresarial

A Ecologia Integral transcende a sustentabilidade ambiental tradicional ao integrar dimensões sociais, culturais e econômicas, proporcionando uma abordagem holística para a gestão empresarial. Essa perspectiva está diretamente alinhada aos princípios ESG (Environmental, Social and Governance), pois reconhece que as operações corporativas não ocorrem isoladamente, mas fazem parte de um ecossistema interdependente.

Para empresas e setores diversos, adotar a Ecologia Integral significa compreender que suas atividades impactam e são impactadas pelo meio ambiente (E – Ambiental), pela sociedade (S – Social) e pela governança corporativa (G – Governança). Isso implica na adoção de práticas sustentáveis, no respeito aos direitos humanos, na promoção de um ambiente de trabalho inclusivo e na implementação de políticas éticas e transparentes. Dessa forma, a Ecologia Integral fortalece a resiliência organizacional, melhora a reputação das empresas e gera valor compartilhado para stakeholders, promovendo um modelo de negócios sustentável e competitivo.

A adoção da Ecologia Integral e dos princípios ESG não é apenas uma tendência passageira ou um modismo empresarial; trata-se de uma necessidade urgente para a sustentabilidade do planeta e uma questão de sobrevivência para as empresas e suas cadeias de valor.

A degradação ambiental, o esgotamento de recursos naturais e as mudanças climáticas já afetam diretamente a economia global, tornando essencial que empresas se adaptem a modelos produtivos mais responsáveis e resilientes.

Além disso, consumidores, investidores e órgãos reguladores exigem cada vez mais transparência e compromisso socioambiental, impactando a competitividade e a longevidade dos negócios. Empresas que ignoram essa transformação correm o risco de enfrentar crises reputacionais, restrições de mercado e perda de competitividade, enquanto aquelas que adotam práticas sustentáveis fortalecem sua posição, reduzem riscos operacionais e criam oportunidades de inovação e crescimento sustentável.

Ecologia Integral na prática: empresas, setores e iniciativas sustentáveis

A Ecologia Integral está sendo aplicada por empresas e setores diversos, mostrando que é possível alinhar desenvolvimento econômico com responsabilidade socioambiental. A seguir, destaco exemplos concretos de como essa abordagem está transformando negócios e cidades.

  1. Empresas com estratégias ESG
  • Natura: Utiliza ingredientes da biodiversidade amazônica de forma sustentável, garantindo inclusão social às comunidades locais e promovendo a conservação ambiental. Seu modelo de negócios incentiva o uso responsável dos recursos naturais e práticas de economia circular.
  • TOTVS: Signatária do Pacto Global da ONU desde 2014, investe em tecnologias para ESG. Em 2023, adquiriu participação na DEEP ESG, especializada em softwares para sustentabilidade corporativa.
  • Vulcabras: Desde 2022, utiliza energia eólica em suas fábricas, reduzindo a emissão de 15 mil toneladas de CO₂, equivalente ao plantio de 67 mil árvores. Além disso, mantém uma área de preservação de 30 mil m² na Bahia e recicla 100% dos resíduos de sua unidade.
  1. Cidades e desenvolvimento urbano sustentável
  • Curitiba (PR): Referência global em mobilidade sustentável, investe em transporte público eficiente, ampliação de áreas verdes e programas de reciclagem.
  • Grupo Emais: Desenvolve bairros planejados sustentáveis, como o Complexo Eplenum (São José do Rio Preto/SP), com irrigação inteligente, reaproveitamento de água pluvial e uso de energia solar.
  1. Agricultura regenerativa e bioenergia
  • Nestlé e Danone: Apoiam práticas agrícolas regenerativas, promovendo restauração do solo, captura de carbono e biodiversidade.
  • BP Bunge Bioenergia: Produz etanol de segunda geração e investe no reflorestamento do Cerrado e da Mata Atlântica, alinhando-se ao programa RenovaBio e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.
  1. Energia renovável e eficiência operacional
  • Drogaria Venancio (RJ): Opera três usinas de energia solar que produzem 80% da eletricidade consumida pela rede. Desde 2011, promove o projeto “Saúde na Praça”, incentivando atividades físicas gratuitas para a população.
  • Itaipu Binacional: Maior geradora de energia limpa do mundo, sua hidrelétrica responde por 15% da eletricidade consumida no Brasil e mantém projetos de preservação ambiental na região.
  1. Construção sustentável e infraestrutura verde
  • Edifício Pátio Victor Malzoni (SP): Integra tecnologias para eficiência energética, uso racional da água e conforto ambiental, reduzindo impactos urbanos.
  • Sustentabilidade na Construção Civil: Projetos de arquitetura verde, como o Museu do Amanhã (RJ), utilizam ventilação natural e captação de energia solar, minimizando o impacto ambiental.

Esses exemplos mostram que a Ecologia Integral não é um custo, mas um investimento estratégico, criando valor econômico, ambiental e social. Empresas que adotam essa abordagem fortalecem sua resiliência, melhoram sua reputação e garantem sua competitividade a longo prazo.

Desdobramentos e aplicações para outros setores

É fundamental compreender que a adoção da Ecologia Integral pode ser aplicada a todos setores empresariais, ampliando seu impacto positivo e garantindo maior sustentabilidade econômica, ambiental e social. Empresas que adotam essa abordagem não apenas reduzem riscos, mas também fortalecem sua competitividade e reputação no mercado.

Pode-se citar exemplos de setores que já aplicam com sucesso a Ecologia Integral:

  • Construção civil: Incorporadoras como a MRV e a Tishman Speyer priorizam eficiência energética, uso de materiais sustentáveis e a criação de espaços que promovem o bem-estar social, com empreendimentos que seguem certificações como LEED e AQUA-HQE.
  • Indústria alimentícia: Empresas como a Unilever e a BRF adotam práticas agrícolas regenerativas, investem na redução do desperdício de alimentos e promovem cadeias de suprimento éticas, garantindo rastreabilidade e apoio a pequenos produtores.
  • Setor automotivo: Empresas como Toyota e Tesla investem em veículos elétricos e híbridos, desenvolvendo tecnologias para reduzir a emissão de carbono e promovendo uma transição para a mobilidade sustentável.
  • Setor de tecnologia: Gigantes como Apple e Dell trabalham com materiais reciclados em seus produtos, implementam programas de logística reversa para descarte responsável de eletrônicos e investem na redução do consumo energético de dispositivos.
  • Setor de Varejo e de Moda: Marcas como Patagonia e Renner adotam materiais reciclados e estratégias de economia circular, reduzindo o impacto ambiental da produção têxtil e incentivando a reutilização de roupas.
  • Setor Financeiro: Bancos como o Itaú e o Santander investem em projetos sustentáveis, oferecem produtos financeiros verdes, como créditos para energias renováveis e fundos de impacto socioambiental, além de promoverem práticas de governança corporativa alinhadas ao ESG.

Esses exemplos mostram que a Ecologia Integral não se limita a um nicho específico, mas pode ser adotada por qualquer empresa que queira inovar, reduzir impactos negativos e criar valor sustentável. O futuro dos negócios depende dessa transformação.

A adoção da ecologia integral traz diversos benefícios para as empresas:​

  • Reputação positiva: Empresas comprometidas com práticas sustentáveis tendem a ser mais valorizadas por consumidores e investidores.​
  • Eficiência operacional: Práticas sustentáveis frequentemente resultam em redução de custos operacionais, como economia de energia e materiais.​
  • Inovação: A busca por soluções sustentáveis incentiva a inovação, levando ao desenvolvimento de novos produtos e serviços.​
  • Engajamento de colaboradores: Funcionários tendem a se sentir mais motivados e engajados em empresas que demonstram responsabilidade socioambiental.​

Considerações finais

A Ecologia Integral não é apenas um conceito teórico ou uma escolha opcional para empresas e indivíduos – é um imperativo inadiável. A degradação ambiental, a escassez de recursos e as desigualdades sociais são realidades que afetam diretamente o funcionamento da economia e a qualidade de vida global.

Empresas que resistem à adaptação sustentável estão fadadas a perder competitividade e enfrentar desafios regulatórios, enquanto aquelas que incorporam práticas responsáveis não apenas prosperam, mas lideram um novo modelo econômico mais justo e resiliente.

A transição para um modelo de negócios sustentável exige um esforço conjunto. Não cabe apenas às grandes corporações ou aos governos a responsabilidade de implementar mudanças significativas. Cada empreendedor, gestor, investidor e consumidor tem um papel fundamental nesse processo. Escolhas diárias – desde investimentos em tecnologias limpas e processos produtivos éticos até a preferência por marcas comprometidas com a sustentabilidade – moldam o futuro do mercado e da sociedade.

Portanto, agir é uma necessidade, não uma opção.

O futuro das empresas e da humanidade depende da forma como equilibramos progresso e preservação.

Que cada decisão empresarial e individual seja guiada pelo compromisso com a sustentabilidade, garantindo não apenas a perenidade dos negócios, mas também a regeneração do planeta.

O tempo de mudar é agora, e cada um de nós é responsável por essa transformação.

Questões para refletir:

  1. Sua empresa está preparada para um futuro onde a sustentabilidade não será mais um diferencial, mas uma exigência do mercado e da sociedade? Como ela se posiciona em relação à adoção da Ecologia Integral e dos princípios ESG?
  2. Quais impactos as práticas atuais do seu setor geram no meio ambiente e na sociedade? O que pode ser feito hoje para minimizar danos e transformar essas práticas em vantagem competitiva?
  • Se a sua empresa fosse avaliada apenas pelos critérios de responsabilidade socioambiental e ética, como ela seria percebida pelos clientes, investidores e colaboradores? O que pode ser mudado para que essa percepção reflita um compromisso real com um futuro sustentável?

Para saber mais:

ALVES, José Eustáquio Diniz. A encíclica Laudato Si’: ecologia integral, gênero e ecologia profunda/The Encyclical Laudato Si’: integral ecology, gender and deep ecology. Horizonte, v. 13, n. 39, p. 1315, 2015.

CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Campanha da Fraternidade 2025: conheça o tema, a identidade visual e a oração. Disponível em: https://www.cnbb.org.br/campanha-da-fraternidade-2025-conheca-o-tema-a-identidade-visual-e-a-oracao/. Acesso em: 4 mar. 2025.

FRANCISCO, Papa. Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html. Acesso em: 4 mar. 2025.

NODARI, Paulo César. Casa Comum ou Globalização da Indiferença?: Ensaios sobre Ecologia Integral, fraternidade, Política e Paz. Paulus Editora, 2022.

TAVARES, Sinivaldo Silva. Ecologia Integral: um novo paradigma. Ecologia integral: abordagens (im) pertinentes. São Paulo: Casa Leiria, p. 23-36, 2020.

 

Luciel H de Oliveira 1 - Ecologia Integral: o caminho para empresas sustentáveis e lucrativas

Luciel Henrique de Oliveira é engenheiro Agrônomo e doutor em Administração (FGV), pós-doutorado em Inovação, dedicado à academia como professor e pesquisador desde 1990 (FACAMP; UNIFAE; PUC-MG). Com vasta experiência em Gestão de Operações e Logística, destacam-se seus estudos e pesquisas em temas como Inovação & IA, Agronegócios, Gestão de Serviços, Sustentabilidade/ESG, Economia Circular e Responsabilidade Social Empresarial. Comprometido com o impacto social, acredita no poder transformador da educação, na importância da colaboração em rede e no empreendedorismo para gerar mudanças positivas na sociedade mediante soluções inovadoras. Colunista EA “ESG & Vida Sustentável”.

www.linkedin.com/in/lucieloliveira

 

Fale com o editor:

eamagazine@eamagazine.com.br