Por Toni Carlos Dias
Talvez a grande crise do trabalho hoje não seja apenas a falta de vaga.
Claro que há vagas desaparecendo, empresas reduzindo equipes, tecnologias ocupando tarefas que antes dependiam exclusivamente de pessoas. Mas existe uma camada mais profunda nessa transformação: o mercado mudou mais rápido do que a linguagem usada para reconhecer valor profissional. E isso pega muita gente no contrapé.
Sou de uma geração que viu o computador entrar nas mesas de trabalho. Vi a Reengenharia prometer reinventar processos do zero, a Qualidade Total virar religião de chão de fábrica, o gerenciamento de rotina e as certificações ISO ditarem o ritmo de empresas inteiras.
Vi os primeiros sistemas reorganizarem rotinas, os ERPs mudarem processos inteiros, SAP e Datasul virarem diferencial competitivo. Vi planilhas se transformarem em poder, processo virar método, até chegar a esse vocabulário que conhecemos hoje — Scrum, Canvas, sprint, squad, agilidade.
Naquele momento, quem aprendia a nova linguagem avançava.
Hoje está acontecendo de novo. Só que com outra intensidade.
A inteligência artificial não é apenas uma ferramenta nova. Ela muda a forma de pesquisar, escrever, organizar, decidir, vender, aprender, contratar, selecionar e produzir. Ela mexe com a parte cognitiva do trabalho. Mexe com aquilo que muita gente acreditava ser exclusivamente humano dentro das organizações: análise, síntese, linguagem, estratégia, leitura de contexto, capacidade de conexão e tomada de decisão.
E aí aparece o nó: tem empresa dizendo que precisa de gente preparada, mas muitas vezes nem a própria empresa sabe mais descrever o que está procurando. Tem trabalhador experiente tentando se recolocar, mas o currículo já não consegue contar sua trajetória. Tem universidade falando em qualificação, mas correndo atrás de uma tecnologia que muda antes do curso terminar. E tem governo falando em capacitação, mas oferecendo resposta genérica para um problema que é semântico, organizacional e territorial.
E tem uma geração inteira de profissionais qualificados se perguntando: onde foi parar o valor da minha experiência?
Eu sinto isso porque vivo isso.
Em 2018, saí de uma empresa pública. Era concursado, tinha estabilidade, bom salário e um mundo relativamente protegido. Saí por um plano de demissão voluntária e decidi empreender com tecnologia. Abri um laboratório, muito influenciado por discussões sobre criptomoedas, novas formas de organização econômica e novas maneiras de compreender o mundo.
Foi um dos períodos em que mais me senti vivo.
Mesmo vindo de uma estrutura confortável, havia ali uma força de descoberta. Uma sensação de que o mundo estava se reorganizando e de que era preciso participar dessa mudança, não apenas assisti-la de longe.
Mas empreender não é narrativa de palco. O projeto não decolou.
Houve erros estratégicos, leitura incompleta de mercado, dificuldades de execução e, logo depois, veio a pandemia. Com ela, mudou a forma de trabalhar, vender, se relacionar, estudar, planejar e sobreviver. Em seguida, o país atravessou um período eleitoral que também paralisou muitas decisões. Não falo aqui como bandeira política. Falo como leitura de mercado: durante um bom tempo, o Brasil ficou suspenso.
Enquanto isso, a tecnologia avançava.
Vieram as inteligências artificiais generativas, os agentes, as automações, os novos modelos de produção de conteúdo, análise e tomada de decisão. De repente, não estávamos mais falando apenas de aprender uma ferramenta. Estávamos falando de uma mudança na forma de pensar o trabalho.
Hoje, aos 51 anos, sei que talvez eu nunca mais trabalhe exatamente como trabalhei antes.
A questão não é apenas individual. Não se trata só da minha trajetória. O que vejo é uma geração inteira tentando se adaptar a um mercado que já não lê experiência da mesma forma. Pessoas com repertório, maturidade, visão sistêmica, capacidade de liderança e histórico profissional consistente estão sendo filtradas por sistemas, palavras-chave, algoritmos, plataformas e modelos de seleção que muitas vezes reduzem uma vida de trabalho a uma aderência automática.
E aqui existe uma contradição: ao mesmo tempo em que o mercado diz precisar de profissionais estratégicos, adaptáveis e capazes de resolver problemas complexos, ele cria processos seletivos cada vez mais padronizados, automatizados e incapazes de reconhecer trajetórias não lineares.
O trabalhador experiente olha para si e pensa: “Eu sei trabalhar.”
Mas o mercado responde: “Não consegui te classificar.”
A crise não é só de empregabilidade. É de tradução.
O trabalhador não está conseguindo traduzir sua experiência para o novo mercado.
A empresa não está conseguindo traduzir suas necessidades reais. A universidade não está conseguindo traduzir formação em empregabilidade concreta. O Estado não está conseguindo traduzir política pública em proteção, transição e futuro. E a inteligência artificial, no meio disso tudo, está sendo tratada como mágica por uns e como ameaça absoluta por outros.
Talvez falte uma nova semântica para o trabalho brasileiro — uma semântica que não reduza o ser humano a prompt, que não transforme IA em fetiche de produtividade, que não trate trabalhador maduro como peça obsoleta. Que não confunda juventude com inovação automática, nem chame precarização de flexibilidade, nem corte de equipe de transformação digital.
Porque o futuro do trabalho não pode ser apenas a empresa perguntando como fazer mais com menos gente.
Também precisa ser o trabalhador perguntando: como eu continuo produzindo valor num mundo que mudou a forma de reconhecer valor?
Há uma disputa silenciosa acontecendo.
Empresas falam em produtividade. CEOs falam em retorno sobre investimento. Universidades falam em competências. Governos falam em qualificação. Sindicatos falam em proteção. Trabalhadores falam em oportunidade, renda e reconhecimento.
Mas talvez a palavra que esteja faltando seja outra: sentido.
O trabalho não é apenas ocupação. É identidade, pertencimento, renda, dignidade, contribuição e leitura de mundo. Quando o mercado muda rápido demais, não muda apenas o emprego. Muda também a forma como as pessoas entendem seu lugar na sociedade.
A inteligência artificial amplia essa tensão porque desloca a fronteira entre tarefa humana e tarefa automatizável. Mas ela também pode abrir uma possibilidade nova: permitir que profissionais com experiência reorganizem seu repertório, criem novos fluxos, construam agentes, ampliem sua capacidade de análise e se reposicionem.
Eu mesmo uso IA. Crio meus próprios agentes.
Organizo projetos, estudos, finanças, saúde, produção de conteúdo e processos de trabalho com apoio dessas tecnologias. Não falo como alguém que rejeita o futuro. Falo como alguém que está dentro dele, mas sabe que existe uma fratura acontecendo.
A fratura não é tecnológica.
A fratura é semântica.
O problema não é só aprender a usar uma ferramenta. É reconstruir linguagem, posição e sentido.
Talvez a pergunta agora não seja apenas: como arrumar emprego?
Talvez a pergunta seja maior: que tipo de trabalho ainda consegue reconhecer o humano quando a máquina passa a participar da produção do pensamento?
Essa é, para mim, uma das grandes questões do nosso tempo.
E talvez o Brasil, com suas desigualdades, sua criatividade, sua informalidade, sua inteligência prática e sua capacidade de improviso, precise urgentemente construir uma nova linguagem para falar de trabalho.
Não uma linguagem importada, genérica, corporativa e cheia de palavras vazias.
Mas uma linguagem capaz de reconhecer território, experiência, maturidade, juventude, tecnologia, proteção, produtividade, autoria e dignidade.
Porque o futuro do trabalho não será decidido apenas pelas máquinas.
Será decidido pela disputa sobre o que ainda chamamos de valor humano.
Toni Carlos Dias é um Ser Humano formado em Administração de Empresas, MBA em Gestão de Pessoas e Ciências Políticas, defende uma nova lógica corporativa baseada na colaboração. Cineasta independente, produziu seis curtas-metragens exibidos em festivais brasileiros. Atualmente, é professor de pós-graduação na FIA, onde ministra Qualidade de Vida no Trabalho Virtual, além de ser Bolsista no Programa de Agente Local de Inovação (Sebrae-RJ). Atuou em grandes empresas como Eletronuclear, Siemens e Ambev. É colunista EA “Fronteiras Curiosas”.
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