Por Djairo Gonçalves
Reflexões sobre poder, assédio e riscos psicossociais nas organizações.
Entre as forças silenciosas que nos habitam desde os primórdios da consciência: o arquétipo paterno exerce especial poder em nossas relações. Ele não se resume à figura biológica do pai, mas representa o princípio da ordem, da lei, da direção e do limite — aquilo que orienta a psique para o mundo e ajuda o indivíduo a construir um eixo ético e moral. No entanto, quando essa energia é reprimida, distorcida ou projetada para fora de si, nasce a sombra do pai: o território psicológico onde a autoridade interior se perde e, em seu lugar, ergue-se o império da submissão ou do autoritarismo.
Na ausência do pai simbólico, buscamos desesperadamente um substituto. Figuras carismáticas, chefes dominadores, líderes salvadores, gurus corporativos ou políticos passam a ocupar esse espaço psíquico vazio. Projetamos neles a força que não reconhecemos em nós mesmos — e, sem perceber, nos tornamos servos de uma autoridade externa que nos promete segurança, mas exige obediência incondicional. É assim que o complexo paterno negativo se infiltra nas relações humanas e profissionais, moldando culturas inteiras à imagem de um pai que não ouve, apenas ordena.
No mundo corporativo, esse complexo ganha formas bem conhecidas. Aparece na liderança centralizadora, que confunde controle com competência; no assédio moral, que mascara fragilidade emocional sob o manto da hierarquia; na insegurança institucional, que faz do medo um instrumento de gestão. E, em suas manifestações mais graves, se manifesta também no assédio mortal, no assédio sexual e na importunação sexual, quando o poder hierárquico ou simbólico é usado para invadir, constranger e reduzir o outro à condição de objeto.
São expressões da sombra que se alimenta da dominação e do abuso, revelando líderes desconectados da empatia, da ética e do verdadeiro princípio paterno — aquele que protege e nunca viola.
Organizações contaminadas por esse tipo de sombra vivem sob a crença inconsciente de que a força está no poder e não na sabedoria.
Além desses, são também os chamados riscos psicossociais em um tempo em que a sombra do pai se espalha em múltiplas formas pelas organizações: burnout, exaustão emocional, despersonalização, perda do sentido no trabalho entre outros. Quando a autoridade interior — aquela que nasce da consciência e não da imposição — é enfraquecida, o sujeito fica vulnerável a líderes manipuladores, autoritários e sistemas desumanizados.
O “pai interior” não some; apenas se fragmenta, refletindo-se nas paredes do escritório e nas telas das videoconferências como uma voz inconsciente que ordena: “faça mais, prove mais, obedeça mais.”
Mas há outro caminho. O complexo paterno positivo emerge quando o indivíduo reconhece e integra sua própria autoridade. Nesse estado, o arquétipo do pai torna-se guia e não carcereiro. O líder que se reconcilia com seu pai interno não precisa dominar para ser respeitado. Ele estabelece limites sem anular, orienta sem humilhar, corrige sem destruir.
A empresa, nesse ambiente, deixa de ser um campo de poder e torna-se um espaço de crescimento mútuo — onde a autoridade nasce da confiança e não do medo.
Integrar o arquétipo paterno é, portanto, um ato de coragem e de responsabilidade. Significa resgatar dentro de si a figura que dá direção, sem precisar buscar fora o “salvador da vez”. É olhar para o “pai sombrio” e reconhecer nele não um inimigo, mas uma parte ferida que clama por maturidade. Somente assim o indivíduo — e as organizações — podem transformar obediência cega em consciência ética, e poder hierárquico em liderança humanizada.
No fim, talvez um dos maiores desafios do nosso tempo não seja encontrar líderes fortes, mas pessoas reconciliadas com sua própria autoridade interior. Enquanto o pai simbólico estiver perdido pelo mundo, continuaremos a repeti-lo nos corredores das empresas, em nossas relações pessoais e nos “palanques da vida”. Integrá-lo é o primeiro passo para curar não apenas nossas relações, mas também as estruturas que criamos — porque toda empresa, no fundo, reflete a psique daqueles que a conduzem.
Fontes e referências
Jung, C. G. – Tipos Psicológicos; O Desenvolvimento da Personalidade; Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo
Edinger, Edward F. – Ego e Arquétipo
Neumann, Erich – A Psicologia do Feminino (cap. sobre o arquétipo do Pai)
Kets de Vries, Manfred – Liderança, Coaching e Psicanálise nas Organizações
Ministério do Trabalho e Emprego – Norma Regulamentadora nº 17 (atualização 2024) – Itens sobre riscos psicossociais e saúde mental no trabalho

Djairo Gonçalves é psicoterapeuta com orientação Junguiana, e hipnoterapeuta. Atua apoiando pessoas em suas questões pessoais e profissionais. Realiza treinamentos, palestras, encontros e retiros com foco no aprimoramento de habilidades comportamentais (soft skills). Pós-graduado em Psicologia Analítica com MBA na Westminster University, Salt Lake City, USA. Pós-graduado em Marketing (ESPM-SP) com graduação em Administração de Empresas (Universidade Metodista). Mais de 25 anos trabalhando no segmento Financeiro e em consultorias estratégicas e de Recursos Humanos. Colunista EA “Espaço Caleidoscópio”.
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