Por Luciel Henrique de Oliveira
ESG: breve história de uma revolução (e dos seus desvios) Desde 2005, o termo ESG (Ambiental, Social e Governança) passou de um conceito inovador para protagonista de uma revolução nos mercados financeiros e no mundo dos negócios. Criado durante a conferência “Who Cares Wins”(realizada em 2004, em Zurique, Suíça), com apoio da IFC e do Pacto Global da ONU, o ESG foi concebido como um novo parâmetro para medir desempenho empresarial além do lucro, abrangendo impactos ambientais, responsabilidade social e boas práticas de governança.
O objetivo era claro: empresas deveriam ser avaliadas por sua contribuição (ou dano) à sociedade e ao planeta, e não apenas por seus balanços. Daí emergiram índices, ratings, fundos e produtos financeiros ESG, impulsionando uma indústria que hoje ultrapassa US$ 35 trilhões em ativos sob gestão, segundo a Bloomberg Intelligence.
“Ratings ESG” são avaliações atribuídas a empresas com base em critérios ambientais, sociais e de governança, com o objetivo de indicar o grau de compromisso e desempenho dessas organizações nessas três dimensões. Essas notas ou classificações são fornecidas por agências especializadas e servem para orientar investidores, consumidores e demais interessados sobre os riscos e as oportunidades ligadas à sustentabilidade corporativa.
Onde o ESG falhou? Da confiança à desconfiança
A popularização dos ratings ESG expôs sérios problemas de padronização, transparência e credibilidade, evidenciados por casos como a premiação da British American Tobacco, empresa do setor de cigarros, em rankings ESG, e a exclusão da Tesla do S&P 500 ESG Index enquanto a Exxon foi mantida, gerando debates sobre critérios e ética. No Brasil, o escândalo da Samarco (Vale/BHP) mostrou que certificações e relatórios ambientais não asseguram compromisso efetivo com a sustentabilidade.
A ausência de padrões claros nas agências de rating, a disparidade nas avaliações de uma mesma empresa e investigações de fraudes, como no caso Deutsche Bank/DWS, revelam limitações que favorecem distorções e o greenwashing no setor.
Esses exemplos ilustram como a falta de transparência e padronização, além de conflitos de interesse, fragilizam o conceito. Não é surpresa que políticos nos EUA, especialmente do campo conservador, estejam promovendo um boicote (“anti-ESG”), alegando que se trata de “capitalismo woke” ou ativismo disfarçado de investimento.
O que realmente deve ser medido? Da opinião ao impacto
Pavan Sukhdev é um economista ambiental indiano de destaque internacional, reconhecido por liderar iniciativas globais como o TEEB (The Economics of Ecosystems and Biodiversity) e a Iniciativa de Economia Verde da ONU, que revolucionaram a valoração econômica da natureza e dos impactos ambientais. Ex-executivo do Deutsche Bank, Sukhdev atua como CEO da GIST Impact, desenvolvendo métricas e ferramentas para mensuração de impactos socioambientais, e foi presidente do WWF International. Sua obra e atuação influenciam políticas públicas, empresas e investidores ao promover a integração entre sustentabilidade, economia e inovação organizacional.
O ponto central de Pavan Sukhdev é claro: “Rating é opinião; impacto é ciência.” Ele propõe abandonar o fetiche do “número mágico” e migrar para uma contabilidade de impacto baseada em evidências científicas e econômicas.
Já é possível, com big data, IA e metodologias de mensuração modernas, quantificar – em termos monetários – quanto valor humano, social e natural uma empresa gera ou destrói. Exemplos práticos:
- Empresas de petróleo: Segundo Sukhdev, em apenas um ano, o setor pode causar US$ 4,4 trilhões em prejuízos ambientais e sociais, enquanto o fundo global para perdas e danos soma apenas US$ 700 milhões.
- Unilever e Natura: Investem pesado em cadeias de fornecimento rastreáveis, transparência e projetos de impacto social em comunidades, integrando métricas socioambientais às decisões estratégicas.
Esse novo olhar exige separar governança (como a empresa opera) dos impactos reais (efeitos sobre o mundo), recomendando adoção de frameworks como os “quatro capitais” (produzido, humano, social e natural), já apoiados por organismos da ONU.
Reflexão e ação: como levar o ESG à prática
Para que o ESG cumpra seu papel transformador, é preciso ir além das listas e selos. Algumas diretrizes para empresas e profissionais:
- Adotar métricas de impacto, não só ratings, utilizando padrões como GRI, SASB ou a Contabilidade de Impacto desenvolvida pela GIST Impact.
- Ser transparente, divulgando metodologias, resultados e limitações, e evitando relatórios “maquiados”.
- Engajar stakeholders, incluindo colaboradores, comunidades e clientes no processo decisório, tornando a governança mais democrática.
- Investir em inovação e tecnologia, utilizando ferramentas de IA, big data e IoT para monitorar impactos em tempo real.
- Aprender com exemplos práticos de empresas como Natura, Unilever, Banco Itaú e Ambev, que desenvolvem projetos capazes de conciliar performance financeira com geração de valor socioambiental.
Novos desafios e oportunidades
O ESG sobreviveu à primeira onda de euforia e à crise de confiança dos ratings, e se fortalece agora em uma nova fase: menos discurso, mais ciência e resultados comprovados. Empresas e profissionais que compreenderem essa virada terão vantagem competitiva e contribuirão efetivamente para uma economia mais sustentável e justa.
O futuro do ESG está em seu “renascimento”: abandonar o discurso vazio, adotar rigor científico e usar o conceito como ponte entre a ciência, a inovação e o resultado empresarial. Isso requer liderança ética, abertura ao diálogo e disposição para questionar velhos paradigmas.
Empresas que querem liderar precisam investir em processos robustos de medição, abrir suas “caixas-pretas” e, acima de tudo, estar dispostas a mudar de rota quando necessário. Para administradores, professores e consultores, o desafio é capacitar equipes para interpretar, aplicar e criar valor real a partir das métricas de impacto, e não apenas das notas ou selos no relatório anual.
A pressão regulatória global aumenta: a União Europeia já exige reporte ESG detalhado de grandes empresas, e o Brasil avança com exigências de transparência para listadas na B3.
A tendência é que o ESG evolua para a “contabilidade de impacto”, quantificando externalidades e atribuindo valor econômico a danos ou benefícios sociais e ambientais.
Startups brasileiras como a Climaforesight e a WayCarbon já atuam desenvolvendo soluções digitais para mensuração de carbono e impactos ambientais, mostrando que inovação e sustentabilidade caminham juntas.
O ESG está em xeque porque, apesar de sua promessa de promover negócios mais responsáveis e sustentáveis, muitas empresas ainda tratam o tema de forma superficial, focando em relatórios e selos em vez de resultados concretos. O que realmente importa é transformar o ESG em prática efetiva, com métricas de impacto verificáveis, transparência nos processos e integração dos princípios ambientais, sociais e de governança à estratégia central do negócio.
Só assim o ESG deixará de ser um discurso e passará a ser fonte de inovação, geração de valor e vantagem competitiva real.
Para pensar e agir
- Como sua empresa ou organização mede (de fato) seu impacto?
- Os indicadores adotados refletem o que realmente importa para a sociedade e o planeta, ou apenas o que é fácil de mensurar?
- O que pode ser feito hoje para tornar a governança mais transparente e conectada ao impacto real?
ESG não morreu. Está só começando, mas só sobreviverá se mudar. A hora é de medir, agir e inovar, assumindo o compromisso real de transformar métricas em decisões concretas e impacto mensurável. Em um cenário de crescente cobrança da sociedade, investidores e regulações, o desafio não é só evitar o greenwashing, mas construir valor legítimo e duradouro para todos os stakeholders.
Sua organização está preparada para sair do discurso e realmente liderar a transformação?
Para saber mais:
- ESG Report. 2024. Disponível em: https://www.ambev.com.br/sustentabilidade/. Acesso em: 11 jul. 2025.
- HAGART, Gordon; KNOEPFEL, Ivo. Communicating ESG Value at the Company-Investor Interface: Who Cares Wins. Conference Report. 2006.
- Relatório de Sustentabilidade. 2023. Disponível em: https://www.naturaeco.com/relatorio2023/. Acesso em: 11 jul. 2025.
- SUKHDEV, Pavan. Corporation 2020: Transforming Business For Tomorrow’s World. Washington, DC: Island Press, 2012.
- SUKHDEV, Pavan. The Birth, Life, Death and Afterlife of ESG Ratings | Pavan Sukhdev | TEDxGateway. [Vídeo]. YouTube, 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=C38xlWnkezQ Acesso em: 11 jul. 2025.
- SUKHDEV, Pavan. Why Corporation 2020? The Case for a New Corporation in the Next Decade. In: SUKHDEV, Pavan. Corporation 2020: Transforming Business For Tomorrow’s World. Washington, DC: Island Press, 2012.
- Sustainable Living Plan. 2024. Disponível em: https://www.unilever.com/planet-and-society/ Acesso em: 11 jul. 2025.

Luciel Henrique de Oliveira é engenheiro Agrônomo e doutor em Administração (FGV), pós-doutorado em Inovação, dedicado à academia como professor e pesquisador desde 1990 (FACAMP; UNIFAE; PUC-MG). Com vasta experiência em Gestão de Operações e Logística, destacam-se seus estudos e pesquisas em temas como Inovação & IA, Agronegócios, Gestão de Serviços, Sustentabilidade/ESG, Economia Circular e Responsabilidade Social Empresarial. Comprometido com o impacto social, acredita no poder transformador da educação, na importância da colaboração em rede e no empreendedorismo para gerar mudanças positivas na sociedade mediante soluções inovadoras. Colunista EA “ESG & Vida Sustentável”.
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