Por Marcelo Ítalo Virgillito

 

Como tradições milenares de certificação se tornaram protocolos rigorosos de segurança alimentar, ética produtiva e responsabilidade corporativa no século XXI.

A alimentação contemporânea deixou de ser apenas um ato de subsistência para se tornar um campo de batalha entre a produção em massa e a busca pela integridade biológica. No epicentro dessa discussão, surgem dois sistemas de certificação milenares que, sob a ótica da modernidade, revelam-se como protocolos rigorosos de segurança alimentar, ética produtiva e responsabilidade corporativa: o Halal e o Kosher.

Não se trata de nicho. O mercado global de alimentos halal foi estimado em US$ 1,43 trilhão em 2023, com projeção de US$ 1,94 trilhão até 2028, segundo o State of the Global Islamic Economy Report 2024/25¹. O Brasil é peça-chave nesse cenário: respondemos por aproximadamente um quarto das exportações globais de carne halal, com crescimento de 65% somente em 2024 — chegando a cerca de US$ 2,2 bilhões em receita, segundo a ABIEC². Para o leitor corporativo, isso é mais do que demografia: é cadeia de suprimentos, é diferencial competitivo e é ESG aplicado.

Neste artigo, exploramos como esses processos transcendem o dogma religioso e oferecem uma resposta fisiológica, ética e corporativa em um mercado saturado por ultraprocessados.

  1. Halal Control: a ética da pureza e do bem-estar

O termo árabe Halal significa “permitido” ou “lícito”. No contexto alimentar, o Halal Control não se limita à ausência de derivados de suíno ou álcool; é regido pelo conceito de Tayyib, que remete àquilo que é puro, saudável e ético. A certificação audita toda a cadeia, do campo à mesa. Os pontos críticos incluem:

  • Abate humanitário (Dhabihah): o animal deve estar saudável, ser tratado com dignidade e o abate deve ser rápido, minimizando o sofrimento e garantindo a sangria total — o sangue é meio de cultura para patógenos.
  • Rastreabilidade total: é proibida a contaminação cruzada com ingredientes Haram (proibidos), incluindo aditivos químicos de fontes não permitidas.
  • Higiene e segurança: as normas são frequentemente superiores às exigidas pelas legislações civis locais.
  1. Kasher (Kosher): a disciplina do “adequado”

O selo Kosher (ou Kasher) deriva da palavra hebraica que significa “apropriado” ou “puro”. Baseado nas leis do Kashrut, é um dos sistemas de controle de qualidade mais antigos da humanidade.

  • Shechita: o abate é realizado por um profissional altamente treinado (Shochet), com lâmina perfeitamente afiada, garantindo morte instantânea.
  • Inspeção rigorosa: após o abate, os órgãos internos — especialmente os pulmões — são examinados em busca de aderências ou doenças. Qualquer imperfeição desclassifica a carne.
  • Separação biológica: a proibição da mistura entre carne e leite, sob a ótica fisiológica, evita sobrecargas enzimáticas digestivas.
  • Supervisão constante (Mashgiach): um supervisor qualificado acompanha toda a produção.
  1. A bioquímica do estresse: por que importa o que o animal sentiu

Aqui é onde a ciência moderna confirma o que a tradição já sabia. O abate sob estresse não é apenas uma questão ética — é uma questão bioquímica que afeta diretamente quem consome a carne.

A pesquisadora Temple Grandin, da Colorado State University, é referência mundial no estudo do estresse pré-abate. Em trabalho seminal, ela demonstrou que o manejo agressivo (uso de bastão elétrico, contenção prolongada, isolamento) eleva drasticamente os níveis de cortisol e lactato no animal³. Em situações de contenção e isolamento por seis horas, os níveis de cortisol ultrapassam 110 ng/mL — valores cuja assinatura permanece nos tecidos.

A consequência fisiológica é o que a literatura chama de carne DFD (Dark, Firm, Dry — escura, firme, seca). Sob estresse crônico pré-abate, o glicogênio muscular é depletado, o pH final permanece elevado, e a carne resultante é mais escura, mais dura e bioquimicamente diferente da carne de um animal abatido em condições humanas, como demonstram revisões publicadas em Comprehensive Reviews in Food Science and Food Safety.

Existe um corolário pouco discutido: o que poderíamos chamar de “second-hand stress”. Os compostos liberados pelo organismo do animal sob sofrimento, cortisol, adrenalina, mediadores inflamatórios, que não desaparecem com o abate. Permanecem em concentração nos tecidos que vão para o consumo humano. Para uma medicina que olha o ser humano como ecossistema bioquímico, isso é informação.

Não é apenas o macronutriente que importa; é a biografia do animal que está no prato.

Os protocolos Halal e Kosher, ao exigirem tratamento digno, lâminas afiadas, sangria completa e abate calmo, produzem carne com perfil bioquímico diferente. Foram desenhados há milênios para fins religiosos, mas o resultado é uma das carnes com menor carga de estresse fisiológico do mercado global.

  1. Refeitório corporativo, ESG e diversidade religiosa

Aqui mora a parte que costuma escapar do leitor leigo, mas que importa diretamente ao executivo: alimentação certificada virou agenda ESG.

Empresas multinacionais com operações no Oriente Médio, Sudeste Asiático e Europa já incorporam fornecedores Halal e Kosher como exigência contratual de cadeia de suprimentos sustentável e ética.         O motivo não é apenas atender colaboradores muçulmanos ou judeus, é alinhar a alimentação corporativa a um padrão verificável de bem-estar animal, rastreabilidade e segurança alimentar.

No Brasil, frigoríficos certificados Halal já exportam para mais de 70 países. Do lado do consumo interno, refeitórios corporativos que oferecem opções certificadas resolvem três problemas de uma vez: atendem à diversidade religiosa da força de trabalho, uma questão crescente em programas de DEI, elevam o padrão geral de qualidade alimentar dos colaboradores e geram um diferencial mensurável em relatórios ESG e certificações como B Corp.

Para o RH que cuida da experiência do colaborador e para o C-level que cuida da reputação da empresa, isso não é detalhe operacional, é instrumento estratégico.

  1. A cidadania alimentar e o que vem depois

Quando olhamos para a saúde de forma holística, entendemos que o corpo não processa apenas macronutrientes — processa a informação contida no alimento. Atender à fisiologia humana de forma integral significa respeitar o funcionamento das nossas células, neurotransmissores e microbiota. Os processos Halal e Kosher, ao exigirem pureza e ética, alinham-se a uma visão de Saúde Integral que reconhece o direito do cidadão de não ser apenas consumidor de calorias, mas um ser biológico que necessita de substâncias compatíveis com a sua natureza.

A cidadania alimentar reside no direito de escolher o que nutre não apenas o corpo, mas respeita a crença, a ética e a integridade biológica de cada indivíduo.

O equilíbrio entre o que a ciência moderna descobre sobre o metabolismo e o que as tradições milenares ensinam sobre a pureza é o caminho para a longevidade e, cada vez mais, para uma corporação que pretende ser respeitada nas próximas décadas.

No próximo artigo, vou aprofundar como esse mesmo princípio, a saúde como ato regenerativo, e não apenas remediativo, e como isso se aplica à própria medicina, e por que a Naturopatia se tornou silenciosamente uma das agendas ESG mais consistentes da próxima década.

Referências

¹ DinarStandard. State of the Global Islamic Economy Report 2024/25, 11ª edição. https://www.dinarstandard.com/post/sgier-2024-25

² ABIEC – Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes. Dados de exportação de carne halal 2024. https://abiec.com.br

³ Grandin, T. The Effect of Stress on Livestock and Meat Quality Prior to and During Slaughter. International Journal of the Study of Animal Problems, 1(5): 313-337, 1980. https://www.wellbeingintlstudiesrepository.org/acwp_faafp/20/

Xing, T. et al. Stress Effects on Meat Quality: A Mechanistic Perspective. Comprehensive Reviews in Food Science and Food Safety, 2019. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/1541-4337.12417

 

foto marcelo fundo transparente - Além do Prato: A Ciência, a Ética e o ESG por trás dos Selos Halal e Kosher

Marcelo Ítalo Virgillito é analista de sistemas com mais de 30 anos de experiência em TI.  Nos últimos anos, tem se dedicado à saúde integral, desenvolvendo expertise em naturopatia, nutrição e mudança de hábitos. Como mentor nutricional, busca integrar conhecimentos técnicos com práticas saudáveis para promover o bem-estar. Seu foco é guiar indivíduos na adoção de hábitos alimentares e comportamentais que favoreçam a regeneração física e mental, por meio da nutrição holística e de mudanças sustentáveis no estilo de vida. Colunista EA “Saúde integral”.

 

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