Por Daniel Spinelli
Quase final de Copa, o Brasil desclassificado precocemente. E este contexto, o futebol, me traz a refletir neste artigo. Pela primeira vez na vida, não consegui torcer para o Brasil. Quem me acompanha sabe o quanto isso custa. O futebol fez parte da minha formação. Como pessoa. Como líder. Como brasileiro.
Mas desta vez algo mudou. E o que mudou não foi o futebol em si. Foi o que ele escolheu se tornar.
Acompanho líderes há mais de trinta anos. E uma das dimensões que mais trabalho no desenvolvimento de quem lidera é exatamente a do legado. A quarta dimensão do método que desenvolvi parte de uma premissa direta: toda liderança deixa marcas. Nas pessoas, nas organizações, na sociedade. E a pergunta que um líder consciente precisa aprender a fazer não é apenas “que resultado eu entreguei?”, mas “que rastro minha influência está deixando?”
Essa pergunta mudou a forma como eu enxergo muita coisa. Inclusive o que está acontecendo com o esporte mais popular do Brasil.
Times, federações e ídolos acumularam ao longo de décadas um ativo extraordinário. Paixão popular. Identificação coletiva. Confiança de gerações inteiras. Um poder de influência que pouquíssimas instituições no mundo conseguem construir.
E esse poder foi colocado a serviço das bets.
Um mercado estruturado sobre compulsão, ansiedade e destruição silenciosa de famílias. Que cresce na exata proporção do adoecimento emocional e financeiro das pessoas. E que encontrou no futebol, em seus ídolos e na paixão popular, a plataforma perfeita para se expandir.
O esporte que já simbolizou superação, disciplina e orgulho coletivo virou, em muitos casos, embalagem. Isso me interessa profundamente como estudioso de liderança. Porque revela algo que repito em palestras e mentorias com líderes e organizações: influência sem consciência de impacto não é liderança. É risco.
Países com maior responsabilidade social já restringiram fortemente esse mercado. O Brasil, com uma regulamentação ainda muito frágil, segue tratando o problema de forma superficial. E o ecossistema esportivo segue emprestando sua imagem a uma indústria que lucra com vulnerabilidade humana.
A provocação que esse cenário traz para qualquer líder é direta.
Para que serve o poder que você acumulou?
Para que serve a reputação, a credibilidade, a audiência que você construiu ao longo de anos?
Qual é o rastro que a sua influência está deixando nas pessoas que te seguem?
Resultado de curto prazo não pode estar acima do legado. Nunca deveria estar. Em nenhuma liderança. Em nenhuma organização. Em nenhum esporte.
E por isso, desta vez, me perdoem os compatriotas, eu não consigo torcer. Não por desamor, mas por coerência com o que vejo e acredito.
Aspiro que esse texto sirva como um alerta.
Não apenas sobre o futebol, mas sobre a responsabilidade que acompanha qualquer posição de influência. Porque cedo ou tarde, o legado aparece.
Três perguntas para encerrar, e para você levar consigo:
- A vida das pessoas melhorou ou piorou depois da sua passagem?
- As organizações ficaram mais ou menos saudáveis?
- E a sociedade, no fim das contas, melhorou ou piorou depois que você passou por ela?
Essas perguntas não têm resposta fácil. Mas todo líder consciente precisa ter a coragem de fazê-las.

Daniel Spinelli é palestrante internacional e autor best-seller brasileiro, reconhecido como uma das principais referências em liderança consciente e cultura organizacional. Com mais de 30 anos de experiência à frente de equipes e projetos corporativos, é fundador de empresas voltadas à formação de líderes e criador da metodologia das 4 Dimensões da Liderança Consciente, adotada por grandes organizações no Brasil e no exterior. Conheça seu livro: “A Potência da Liderança Consciente”. Acesse: danielspinelli.com.br
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